A terapia existencial não é técnica

A psicoterapia existencial não é uma técnica

O momento em que vivemos atualmente, nossa cultura está impregnada pelo tecnicismo e pelo pragmatismo, fica difícil para algumas pessoas compreenderem a "utilidade" da psicoterapia numa abordagem existencial.

De fato, a psicoterapia existencial não tem como foco uma técnica com solução objetiva, como o "controle" da ansiedade, o "livramento" da depressão, ou o "domínio" de um filho adolescente rebelde.

Todos esses termos utilizados entre aspas fazem parte dessa compreensão de mundo atual, onde a técnica e o controle são supervalorizados em todos os aspectos da vida, inclusive com as pessoas e emoções.

Para atender essa "demanda", há uma ampla diversidade de abordagens tecnicistas, remédios e práticas que se propõem a controlar, dominar ou "deletar" o sofrimento emocional, a angústia, a ansiedade, a depressão, etc.

Essas propostas existem justamente por estarmos numa época onde que a ciência enquanto técnica evoluiu tanto, que se tornou uma espécie de "palavra de ordem". Tudo tem de ser cientificamente comprovado, calculado, explicado, controlado e resolvido.

Se o computador não liga, é só chamar o técnico para que ele corrija e volte a funcionar. Se o alarme do carro apita em momentos inadequados, basta levar ao técnico que ele corrige e volta ao normal. Se a parede está mofada é só perguntar ao técnico qual material impermeabilizante e como aplicar, e pronto!

Tudo se resolve, para tudo se tem uma técnica que alguém já estudou e chegou a um entendimento, tendo encontrado um meio para resolver. Essa compreensão se faz tão presente em nossa vida, que passamos a olhar as pessoas e a nós mesmos pela lente da técnica também.

As pessoas procuram a psicoterapia para "aprenderem a controlar um sentimento", para "retirar a depressão", ou até para "se comunicarem mais eficientemente, de modo a conseguirem o que desejam". O que elas buscam são técnicas, modelos formatados, receitas prontas.

Os avanços científicos e técnicos servem muito bem para objetos e máquinas, mas com as pessoas tudo fica um pouco mais confuso. Não há como saber qual a melhor técnica para cada pessoa, pois somos diferentes, temos peculiaridades que distoam, inclusive o que é bom para um depende de suas buscas e interesses, fica um tanto complicado generalizar.

Apesar de tantos avanços na ciência e na tecnologia, pouco entendemos sobre o ser humano, sobre suas angústias, seus sofrimentos e suas dificuldades emocionais. O que para uma pessoa gerou um estado depressivo, não é o mesmo que gera para outra, a maneira como uma lidou com seu sofrimento emocional e se sentiu melhor consigo não é igual que outra pessoa.

Não há como definir objetivamente e universalmente o que fazer para "controlar", "dominar" ou "livrar" um sentimento de tristeza, isso depende de muitos fatores que envolvem as experiências de vida de cada pessoa, tudo o que ela relaciona com a tristeza, inclusive como este sentimento é experimentado por cada um.

Como comparar a tristeza de uma pessoa que perdeu um parente próximo, com a tristeza de uma pessoa que não passou num concurso público que tanto desejava, ou a tristeza de uma pessoa que se esqueceu de comprar maracujá na feira? São pessoas, condições e tristezas diferentes, não há como comparar.

Por isso mesmo não há como estabelecer uma técnica previamente pronta para o ser humano, que sirva para todos. E neste sentido, a psicoterapia existencial se propõe a colaborar que a pessoa possa se aproximar de si mesma, se conhecer mais profundamente e compreender melhor seus sentimentos e sua história de vida.

Nesta proposta, não se busca "curar" ou "controlar" um sentimento, mas compreender ele, e encontrar meios para lidar com ele de maneira saudável com o que sente, incentivando a autonomia da pessoa sobre suas escolhas, não se colocando como um "detentor da solução de seus problemas".

O psicoterapeuta existencial não tem como foco se colocar como um técnico, que diz as pessoas o que devem fazer ou como devem fazer. Diferente disso, ele atua um meio para que a pessoa perceba melhor seus sentimentos, o que lhe faz bem e o que não lhe faz, percebendo cada vez mais suas possibilidades existenciais para que possa fazer escolhas mais favoráveis em sua vida.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Existência e Liberdade em Sartre

Sartre em 1950

Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo e escritor francês, viveu e participou intensamente de diversos movimentos sociais durante o século XX e ficou conhecido por divulgar o existencialismo.

”A existência precede a essência”
(Sartre)

Para ele, não somos predeterminados por algo ou alguém, não há uma essência anterior ao ser que defina nossa existência. A pessoa primeiramente existe, para depois se tornar o que fizer de si. A nossa essência será, portanto, o resultado de nossa existência.

Não há nada além do ser que vai definir como devemos ser. Não há um Deus, uma razão nem uma natureza humana que delimite o vamos nos tornar.

"O homem primeiramente existe, surge no mundo; e somente depois se define."
(Sartre)

Segundo Sartre, o ser humano surge no mundo, existe e escolhe o que vai se tornar, além disso se transforma com o tempo. A vida não tem sentido algum antes do sentido que damos a ela.

O ser humano se difere de um objeto. O objeto é feito para servir um ser humano, ele tem uma essência, de como deve ser produzido, para qual será seu uso. Se vou construir um copo, tenho de ter uma ideia de como ele será, para qual será sua utilidade.

Já o ser humano não, ele não é feito para um fim específico, e não há como saber o que ele irá se tornar antes dele ser. Deste modo, somos livres para escolher o que fazer de nossa vida.

"O homem está condenado a ser livre."
(Sartre)

Estar condenado a ser livre, parece contraditório, pois o "condenado" traz a ideia de que estamos presos. Mas Sartre diz que somos condenados, justamente porque não temos como não ser livres. Há todo momento somos livres, pois sempre podemos fazer escolhas.

Não há como não ser livre, pois não há como não fazer escolhas. Inclusive quando escolhemos "não escolher", estamos também fazendo uma escolha. Se não estamos satisfeitos com a vida que levamos, podemos escolher fazer algo para mudar. 

"O mais importante não é aquilo que fizeram de mim, mas o que eu faço com o que fizeram de mim."
(Sartre)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Clube da Luta e as questões Existenciais


Tanto o livro quanto o filme “Clube da Luta” abordam diversas questões existenciais, entre elas a liberdade, a angústia, a finitude, o sentido da vida (ou a falta dele), a solidão e a responsabilidade sobre as escolhas.

A história se inicia apresentando a vida de uma pessoa “comum”, um sujeito que trabalha para uma empresa de seguros de automóveis. Sua vida que se resume em trabalhar, consumir, dormir, viajar a trabalho, assistir tv, trabalhar, consumir, e assim por diante, repetidamente. O personagem se encontra numa situação problema quando começa a perder o sono. Após diversas noites de insônia vai percebendo que sua vida não passa de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia...

Na tentativa de resolver o mal estar gerado pela insônia, ele procura um médico em busca de algum remédio para dormir. O médico diz que não pode receitar, pois ele não aparenta nenhum sintoma físico, ele então diz ao médico que está sofrendo e o médico comenta que se ele quer saber o que é sofrimento, para visitar os grupos de apoio para portadores de câncer de testículo.

O personagem começa então a visitar reuniões de grupos de câncer de testículo. Nesses encontros, as pessoas que estão a beira da morte tratam uns aos outros como se fosse o último dia de sua vida. Com essa sensação de participar de um grupo, da receptividade e do afeto, ele volta a se sentir bem e a dormir tão bem quanto uma criança.

Ele passa então a buscar novos grupos de portadores de outros tipos de câncer, e se torna um viciado em grupos de apoio, até o momento em que se depara com Marla, uma depressiva com ideação suicida que também visita os grupos de apoio ao câncer, sem ter câncer.

A mentira de Marla reflete a sua mentira e ele então não consegue relaxar nas reuniões, se sente tenso e volta a perder noites de sono. Para resolver essa questão, os dois combinam dias de visita alternados, para que cada um possa frequentar os grupos sem se encontrarem.

No retorno de uma viagem a trabalho ele se depara com seu apartamento explodindo inesperadamente. Todas as suas mobílias arrumadas, seus livros e discos, a coleção de louça importada, seus quadros e estofados, tudo explode, exatamente no dia em que conhece Tyler Durden, um sujeito subversivo com ideias revolucionárias, trabalha em diversos empregos noturnos e durante o dia fabrica sabão com banha de lipoaspiração roubada de clínicas de estética.

Como não há lugar para onde ir após seu apartamento ter sido detonado, ele vai morar com Tyler num casarão abandonado. Juntos eles criam o “Clube da Luta”, com a proposta de encarar a vida como algo a ser experimentado. Sua relação com Tyler faz perceber outro lado de sua própria vida. Em meio as lutas, Tyler questiona a maneira como encaramos a vida cotidianamente:
"Você não é seu emprego ou o dinheiro que possui." (Tyler Durden)
"As coisas que você possui acabam te possuindo." (Tyler Durden)
"A propaganda nos faz correr atrás de coisas e a trabalhar em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos." (Tyler Durden)
Com essa história podemos nos questionar sobre o que estamos fazendo de nossa vida, enquanto trabalhamos para produzir o que não consumimos, consumimos o que não é necessário, e guardamos um estoque de coisas que não utilizamos e não utilizaremos para quase nada, e, por fim, nunca nos sentimos satisfeitos.

Não podemos esquecer que um dia vamos morrer que e que nossa vida terá sido sempre a mesma se não mudarmos a maneira de encarar ela. Além disso, quando morremos não teremos mais nada, nem a nossa existência.
"Essa é a sua vida e está acabando a cada minuto." (Tyler Duyrden)
"Estamos arriscados a morrer a qualquer hora, a tragédia é que não morremos". (Marla)
São esses os temas que o "Clube da Luta" explora, a tragédia da vida, a angústia da liberdade de escolha, a necessidade de se fazer e de dar sentido ao absurdo que é a vida, em meio a condicionamentos que fomos impregnados, a nossa história e ao passado, a possibilidade que temos de mudar o rumo, encontrando e criando novos caminhos para nossa vida.

Nos propõe a refletir sobre diversas questões que permeiam a existência humana, levando em consideração seus paradoxos e contradições. Como nos relacionamos com os valores que nos foram ensinados? -E com as pessoas, coisas e situações que encontramos em nossa vida?


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Livro: História da Psicologia Fenomenológico Existencial

O livro "Para uma História das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais: Ditas 'Humanistas'", do psicólogo Afonso Fonseca, traça um breve histórico das Psicologias Fenomenológico Existenciais, comentando as vertentes européias, norte-americanas e latino-americanas, bem como seus encontros.

Me pareceu um livro bem leve e agradável de ler, com conteúdo bem disposto e bem organizado, que me possibilitou compreender melhor o caminho que foi traçado pelas abordagens fenomenológico existenciais na psicologia.

O autor comenta sobre o desenvolvimento histórico da psicologia fenomenológico existencial citando grandes pensadores como: Sören Kierkegaard (1813-1855), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Martin Heidegger (1889-1976), Merdad Boss (1903-1966), Ludwig Binswanger (1881-1966), Carl Rogers (1902-1987), entre outros.

Segundo ele, grande parte desses pensadores podem ser entendidos como Humanistas, no sentido de que se diferenciaram das concepções de idealismo e universalismo hegelianos, recuperando a experiência e tomando a vivência humana como referência.

Com a valorização da vivência do corpo e dos sentidos em Nietzsche, retomando os pré-socráticos, que, segundo o autor, vai se constituir um fundamento básico das psicologias e psicoterapias fenomenológico-existenciais.

Afonso Henrique Lisboa da Fonseca é professor em Programas de Formação em Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, em especial Abordagem Centrada na Pessoa e Gestalterapia. É autor de inúmeros artigos e livros de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, publicados em revistas brasileiras e de outros países, entre os quais se destaca a sua participação, juntamente com Carl R. Rogers, John K. Wood e Maureen M. O’Hara, na obra: "Em Busca de Vida. Da Terapia Centrada no Cliente à Abordagem Centrada na Pessoa, de 1983".

Trata-se de um livro muito interessante para quem deseja conhecer mais sobre a Psicologia ou Psicoterapia Fenomenológico-Existencial (ou 'Humanista'), fica a indicação!

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Fenomenologia e Psicoterapia

Psicologia e Fenomenologia

Fenomenologia é um método utilizado para compreender as coisas e o ser humano, entendendo este não como um conceito separado do mundo em que vive, mas como um ser em relação.

O termo deriva de duas palavras gregas, phainomai (fenômeno) que significa aparecer ou mostrar-se, e logos, que significa estudo, explicação ou descrição, sendo então a descrição dos fenômenos.

Enquanto método de aquisição de conhecimento, ela se difere da ciência positivista, que trabalha com padrões objetivos, classificações e generalizações. E também se difere de uma concepção idealista, que acredita que cada coisa possui um sentido ideal, em sentido abstrato e separado do mundo em que vivemos.

Fenômeno é tudo aquilo que se mostra à consciência. A fenomenologia é o estudo daquilo que se mostra, na busca de compreender o fenômeno, não o que eu espero que ele seja ou o que eu relaciono com ele de antemão, mas justamente como ele se mostra.

Quando experimentamos algo, não concebemos apenas os fatos, mas também as vivências e os afetos que temos com os fatos, que dependem de nossos sentidos e significados.
“Não existem fatos, somente interpretações.”
(Nietzsche)
Nossa consciência é sempre intencional, por ser consciência de algo, enquanto que este “algo”, é sempre para uma consciência. Não há separação entre consciência e coisa em nossa experiência, pois uma é afetada pela outra.

Não há um mundo separado de nossa existência a ser desvelado, mas um mundo para uma consciência. A consciência não é somente um lugar onde guardamos ideias e memórias, mas algo que dá significado ao que observamos por meio da relação.

A fenomenologia não busca algum tipo de significado oculto para as coisas, ou tenta relacionar o que é percebido com um conceito prévio, mas justamente olhar para a coisa como ela se mostra à consciência.

Para observar as coisas tal como se mostram, a fenomenologia propõe a redução fenomenológica, onde primeiramente deixamos de lado nossos conhecimentos prévios, concepções e juízos sobre o que é observado, para observar a coisa como ela se mostra.

Neste momento, o intuito não é classificar o fenômeno, mas captar o modo como ele se mostra. Quando classifico um fenômeno, reduzo ele a um conceito, posso até explicar ele, mas essa explicação fica somente a nível racional, isso não garante que eu o compreenda.

Somente depois de nos aproximarmos do fenômeno, nos distanciamos dele e buscamos nossas referências teóricas para relacionar com ele. A intenção não é partir dos fatos, mas das coisas como se mostram à consciência.

Os significados da coisa percebida vão se ampliando com as experiências que estabelecemos com ela, e as experiências vão preenchendo significados das coisas. O fenômeno vai se revelando a cada momento que é observado, vai se apresentando tal como é.

Num olhar fenomenológico, uma pessoa é vista sem julgamentos prévios, todas as classificações e concepções prontas são colocadas entre parênteses para que se possa compreender a pessoa como ela se mostra, como ela é, como se sente e como significa sua vida.

Na psicoterapia, não se trata de se ater somente aos fatos que a pessoa comenta, mas procurar compreender os afetos e os significados que ela estabelece com cada fato que vivencia. Olhar para a pessoa como ela se mostra, buscando compreender seus significados e suas experiências.
“A subjetividade deve ser o ponto de partida.”
(Sartre)
Esse procedimento requer uma postura de não supor que já sabemos o que a pessoa mostra, mas deixar a pessoa se mostrar como ela é sem fechar um diagnóstico. Deste modo, ela vai se revelando a cada momento, conforme vamos compreendo seus modos de ser, seus afetos e significados.

A fenomenologia é portanto o processo de descrever o fenômeno tal como se mostra, com intuito de compreendê-lo como ele se mostra, de modo a captar o fenômeno de maneira mais ampla, aberto a novos significados, possibilidades e contradições próprias do fenômeno e não dos conceitos que atribuímos ao que percebemos.

Na psicologia, a fenomenologia é uma proposta epistemológica alternativa à concepções tão fortemente enraizadas de ciência positivista e do idealismo psicodinâmico, possibilitando um outro caminho para a compreensão do ser humano, encarando este como um ser em construção e transformação.

Como embasamento metodológico para a prática psicoterapêutica, o uso do método fenomenológico na psicoterapia possibilita uma abertura para novas percepções e compreensões sobre fenômeno humano, em seus distintos modos de ser, na tentativa de se aproximar mais dele.
“O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.”
(Alberto Caeiro)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Autenticidade em Kierkegaard

Autenticidade em Kierkegaard

Sören Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo e teólogo dinamarquês, é considerado um dos principais expoentes do existencialismo.

Para ele, a existência humana não pode ser explicada por meio de conceitos ou esquemas abstratos. O sistema promete muito mas não dá conta da realidade humana, pois a realidade humana é muito complexa e peculiar.

Somente o indivíduo pode se aproximar de sua realidade que é subjetiva, a subjetividade é a verdade, ou seja, minhas crenças subjetivas são verdade para mim, por isso cada um deve buscar a sua própria verdade, que seja verdade para si.

A ideia de universal, do que é igual para todos, segundo Kierkegaard, não passa de uma abstração do singular, e singular é o ser, a pessoa. As generalizações tratam apenas de hipóteses genéricas, mas nada dizem sobre uma pessoa específica.

Seu foco está muito mais para a subjetividade, para as emoções e o reconhecimento dos sentimentos, do que para o pensamento ou para a razão. Para ele, a existência está aí para ser vivida, dispensando explicações racionais.

“Sinto, logo sou.” (Kierkegaard)

Não existe nenhuma predeterminação para o ser humano e essa indeterminação nos leva a angústia. Se temos uma determinação, se sabemos que estamos no mundo para um fim, que temos um caminho a ser seguido, a vida parece coerente.

A partir do momento que não há uma determinação, nos sentimos angustiados e perdidos, o que nos gera questões como: o que eu faço com o fato de não ter uma regra ou um caminho a seguir?

Para Kierkegaard, não existem razões lógicas que determinam como cada um deve conduzir a sua vida, a vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.

A questão não é tentar resolver racionalmente o problema do viver, tentar explicar os “porquês” da vida, pois isso fica apenas em nível racional e não na experiência. A vida está aí para ser vivida e sentida, não somente explicada racionalmente.

O desespero surge da alienação do eu, do desligamento da pessoa com sua própria existência. Para solucionar o desespero e a angústia, ele propõe irmos de encontro com o que verdadeiramente somos, ao invés de tentar nos tornar outra coisa.

“Aventurar-se no sentido mais elevado é, precisamente, tomar consciência de si próprio.” (Kierkegaard)

Segundo ele, ser quem você realmente é proporciona uma paz e uma harmonia interna com a sua própria existência. A autoanálise é uma ferramenta para compreender o desespero, para se aproximar de si mesmo.

Ser quem se é, para Kierkegaard, é o contrário do desespero. O desespero desaparece quando paramos de negar a pessoa que realmente somos, e nos permitimos ser como somos e como queremos ser.

“O desespero mais comum é não escolher, ou não podermos ser nós mesmos. Mas a forma mais profunda de desespero, é escolhermos ser outra pessoa, ao invés de nós mesmos.” (Kierkegaard)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Filosofias Pós-Modernas


As filosofias pós-modernas são aquelas que se originam na crítica dos sistemas filosóficos, científicos e artísticos que caracterizam o projeto da modernidade. São diversas abordagens de pensamento filosófico que possuem como início questionamentos de Nietzsche sobre os valores que sustentam o conhecimento na filosofia ocidental.

"Não há fatos, apenas interpretações."
(Nietzsche)

O filósofo francês François Lyotard (1924-1998), um dos mais importantes pensadores na discussão sobre a pós-modernidade, caracteriza esse período como uma decorrência do fim das "grandes narrativas" totalizantes, fundadas na crença no progresso e nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.

Para entender melhor o modo de pensar "pós-moderno", fica mais fácil entendendo o que foi a filosofia da modernidade. A modernidade é um período identificado pela Revolução Industrial, a crença no Progresso, o Racionalismo e o Positivismo.

Os pensamentos filosóficos na modernidade acreditavam que a razão tecnocientífica favoreceriam a emancipação humana, porém a história nos provou o contrário. O que temos hoje é miséria, desigualdades sociais, catástrofes ambientais, guerras, acúmulo de lixo e dominação de países economicamente mais ricos sobre os demais.

Segundo muitos dos pensadores pós-modernistas, a exacerbação da razão chega a produzir o irracionalismo, que não permite questionar ou criticar os elementos que fundamentam essa razão. Deste modo a razão se torna uma arma de poder e agente do autoritarismo, em vez de instrumento para a liberdade humana.

O pós-modernismo rejeita uma única concepção da realidade, mas as diferentes possibilidades de interpretação dos fenômenos. A concepção da sociedade pós-moderna é de uma aldeia global, na passagem de uma cosmovisão única e universal para o respeito das diferenças e a valorização do local em detrimento do universal.

A consciência pós-moderna rejeita a estrutura de poder por meio da razão, pois não a considera como única e determinante. Neste sentido, esses filósofos criticam não a verdade mas uma única concepção de verdade, ou um centro de poder e autoridade. Deste modo, os padrões estão sempre sendo criticados e questionados.

Segundo Michel Foucault (1926-1984), o estabelecimento de uma única verdade e centro de poder torna o conhecimento autoritário e restrito. Para não manterem essa tradição, os filósofos pós-modernos buscam captar as singularidades, particularidades e diversidades dos indivíduos no cotidiano. Deste modo, valorizam a pluralidade cultural e o respeito às diferenças.

Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês, um dos principais popularizadores do termo "pós-modernidade" no sentido de forma póstuma da modernidade, utiliza a expressão "modernidade líquida", para descrever esse período, referindo-se a uma realidade ambígua, multiforme, onde tudo o que é sólido se desmancha no ar.


Referências Bibliográficas:
Filosofando: Introdução à Filosofia. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins.
Fundamentos da Filosofia. Gilberto Cotrim.
Convite à Filosofia. Marilena Chauí


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Ciência Positivista e Existencialismo


A ciência, nos moldes do positivismo, é um corpo teórico que se desenvolve por meio de estudos embasados num método científico, que por meio de análises, hipóteses e classificações, chega a generalizar conhecimentos e possibilitar o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias.

Por tratar de fatos mensuráveis, ela nos fornece conhecimentos práticos e úteis sobre o mundo e a vida, por exemplo se um pneu de um automóvel vai resistir a um solo específico, quanto tempo ele pode resistir, quando deve ser trocado, qual manutenção adequada, etc. Isso nos permite entender melhor as coisas ter maior previsão sobre elas.

Com relação a questões materiais esse método científico é muito bem aplicado e funcional, porém esse mesmo método apresenta certas dificuldades quando é utilizado para explicar e tentar "prever" os seres humanos.

Creio que vocês vão imaginar que não, pois a ciência nos previne de doenças, cria vacinas, remédios e alimentos que promovem um melhor funcionamento de nosso corpo, mas as coisas começam a se complicar quando se trata das emoções, de nossa subjetividade e do que nos é interno.

Me explico! Quando a ciência estuda o desgaste do pneu de um automóvel, esse desgaste num asfalto na China deve ser o mesmo desgaste num mesmo asfalto na Austrália, no Japão, ou até mesmo no Brasil, e é por isso que as pessoas compram carros importados e dirigem da mesma maneira.

Agora com as pessoas tudo fica um pouco mais complexo, pois envolve algo que não é objetivo, mas subjetivo. Como uma pessoa se sente ao ver uma roupa vermelha possui um significado na China, outro na Austrália e outro no Brasil, inclusive isso varia de pessoa a pessoa, de acordo com sua história, seus valores e costumes.

Isso somente pensando numa simples cor, imagine quando nos aprofundamos em questões como relações humanas, desejos, expectativas e angústias... Os costumes, signos e valores estabelecidos variam muito, não somente de acordo com o espaço geográfico, mas também com o tempo.

Um costume que tínhamos há 20 anos atrás hoje já não é o mesmo. O modo como as famílias se reuniam para escutar um rádio nos anos 1960 não é o mesmo do modo que as famílias se reuniam para assistir televisão nos anos 1990, e nem o mesmo modo que as famílias se separam cada um em sua toca (quarto), atualmente, para ficarem no notebook, celular ou tablet.

Os valores mudam, os conceitos mudam os sentimentos envolvidos também. Não são somente os fatos, mas o modo como cada pessoa sente e se relaciona com as coisas em sua volta, como ela reconhece (ou não) sua história de vida, como estabelece suas relações e projetos para o futuro.

Tudo isso está além de qualquer tentativa de generalizar e classificar as pessoas. Por isso, um meio de se compreender a pessoa em nosso tempo é tentar perceber em sua singularidade, com questões do tipo: Quais os seus valores? Qual a sua história e expectativas para com a vida? Quais seus sentimentos e suas buscas?

É neste caminho que o existencialismo se propõe a olhar para as pessoas, para além de qualquer classificação generalista, que coloca todos como iguais, mas buscando o que representa cada pessoa como singular e única, quais as condições e experiências que torna ser a pessoa que ela é?

"A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada."
(Kierkegaard)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.