Ciência positivista e o existencialismo


A ciência, nos moldes do positivismo, é um corpo teórico que se desenvolve por meio de estudos embasados num método científico, que por meio de análises, hipóteses e classificações, chega a generalizar conhecimentos e possibilitar o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias.

Por tratar de fatos mensuráveis, ela nos fornece conhecimentos práticos e úteis sobre o mundo e a vida, por exemplo se um pneu de um automóvel vai resistir a um solo específico, quanto tempo ele pode resistir, quando deve ser trocado, qual manutenção adequada, etc. Isso nos permite entender melhor as coisas ter maior previsão sobre elas.

Com relação a questões materiais esse método científico é muito bem aplicado e funcional, porém esse mesmo método apresenta dificuldades quando é utilizado para explicar e tentar "prever" os seres humanos.

Você pode imaginar que não, pois a ciência nos previne de doenças, cria vacinas, remédios e alimentos que promovem um melhor funcionamento de nosso corpo, mas as coisas começam a se complicar quando se trata das emoções, de nossa subjetividade e do que nos é interno.

Quando a ciência estuda o desgaste do pneu de um automóvel, esse desgaste num asfalto na China deve ser o mesmo desgaste num mesmo asfalto na Austrália, no Japão, ou até mesmo no Brasil, e é por isso que as pessoas compram carros importados e dirigem da mesma maneira.

Agora com as pessoas tudo fica um pouco mais complexo, pois envolve algo que não é objetivo, mas subjetivo. Como uma pessoa se sente ao ver uma roupa vermelha possui um significado na China, outro na Austrália e outro no Brasil, inclusive isso varia de pessoa a pessoa, de acordo com sua história, seus valores e costumes.

Isso somente pensando numa simples cor, imagine quando nos aprofundamos em questões como relações humanas, desejos, expectativas e angústias... Os costumes, signos e valores estabelecidos variam muito, não somente de acordo com o espaço geográfico, mas também com o tempo.

Um costume que tínhamos há 20 anos atrás hoje já não é o mesmo. O modo como as famílias se reuniam para escutar um rádio nos anos 1960 não é o mesmo do modo que as famílias se reuniam para assistir televisão nos anos 1990, e nem o mesmo modo que as famílias se separam cada um em sua toca (quarto), atualmente, para ficarem no notebook, celular ou tablet.

Os valores mudam, os conceitos mudam os sentimentos envolvidos também. Não são somente os fatos, mas o modo como cada pessoa sente e se relaciona com as coisas em sua volta, como ela reconhece (ou não) sua história de vida, como estabelece suas relações e projetos para o futuro.

Tudo isso está além de qualquer tentativa de generalizar e classificar as pessoas. Por isso, um meio de se compreender a pessoa em nosso tempo é tentar perceber em sua singularidade, com questões do tipo: Quais os seus valores? Qual a sua história e expectativas para com a vida? Quais seus sentimentos e suas buscas?

O existencialismo não pretende compreender a pessoa a partir de generalizações, pois seu foco é justamente a existência enquanto expressão singular. As teorias científicas pregam que diferentes pessoas reagem da mesma maneira diferente de estímulos semelhantes, já o existencialismo acredita que diferentes pessoas reagem de maneiras diferentes a estímulos semelhantes, pois cada um terá uma reação específica de acordo com seu modo de ser e sua história de vida.

Neste sentido o existencialismo se desvia dessa visão científica de psicologia que busca classificar, categorizar e generalizar o modo de ser das pessoas. Sua busca é na compreensão da pessoa em suas singularidades, entendendo que cada um é diferente, sente e reage de maneira diferente. Sendo assim, não acredita na possibilidade de se construir um conjunto sistemático de explicações sobre a pessoa sem antes conhecê-la.

É neste caminho que o existencialismo se propõe a olhar para as pessoas, para além de qualquer classificação generalista, que coloca todos como iguais, mas buscando o que representa cada pessoa como singular e única, quais as condições e experiências que torna ser a pessoa que ela é?

Um cientista que estuda sobre a visão pode calcular os movimentos de sua pupila de acordo com as variações de iluminação do ambiente, outro cientista que estude a audição pode estabelecer a distância você poderá ouvir um som num certo volume, outro cientista pode determinar qual substância pode melhorar sua respiração, mas nenhum deles compreende muito bem como você poderá se sentir quando, inesperadamente, se encontra com uma pessoa querida, que já não via há anos, ou como quando chega em sua casa e alguém te preparou um de seus pratos favoritos. A ciência positivista lida com fatos objetivos, mensuráveis e generalistas, e não com sentimentos estados subjetivos e características singulares.

"A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada."
(Kierkegaard)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
Tecnologia do Blogger.