Clube da Luta e as questões existenciais


Tanto o livro quanto o filme “Clube da Luta” abordam diversas questões existenciais, entre elas a liberdade, a angústia, a finitude, o sentido da vida (ou a falta dele), a solidão e a responsabilidade sobre as escolhas.

A história se inicia apresentando a vida de uma pessoa “comum”, um sujeito que trabalha para uma empresa de seguros de automóveis. Sua vida que se resume em trabalhar, consumir, dormir, viajar a trabalho, assistir tv, trabalhar, consumir, e assim por diante, repetidamente. O personagem se encontra numa situação problema quando começa a perder o sono. Após diversas noites de insônia vai percebendo que sua vida não passa de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia...

Na tentativa de resolver o mal estar gerado pela insônia, ele procura um médico em busca de algum remédio para dormir. O médico diz que não pode receitar, pois ele não aparenta nenhum sintoma físico, ele então diz ao médico que está sofrendo e o médico comenta que se ele quer saber o que é sofrimento, para visitar os grupos de apoio para portadores de câncer de testículo.

O personagem começa então a visitar reuniões de grupos de câncer de testículo. Nesses encontros, as pessoas que estão a beira da morte tratam uns aos outros como se fosse o último dia de sua vida. Com essa sensação de participar de um grupo, da receptividade e do afeto, ele volta a se sentir bem e a dormir tão bem quanto uma criança.

Ele passa então a buscar novos grupos de portadores de outros tipos de câncer, e se torna um viciado em grupos de apoio, até o momento em que se depara com Marla, uma depressiva com ideação suicida que também visita os grupos de apoio ao câncer, sem ter câncer.

A mentira de Marla reflete a sua mentira e ele então não consegue relaxar nas reuniões, se sente tenso e volta a perder noites de sono. Para resolver essa questão, os dois combinam dias de visita alternados, para que cada um possa frequentar os grupos sem se encontrarem.

No retorno de uma viagem a trabalho ele se depara com seu apartamento explodindo inesperadamente. Todas as suas mobílias arrumadas, seus livros e discos, a coleção de louça importada, seus quadros e estofados, tudo explode, exatamente no dia em que conhece Tyler Durden, um sujeito subversivo com ideias revolucionárias, trabalha em diversos empregos noturnos e durante o dia fabrica sabão com banha de lipoaspiração roubada de clínicas de estética.

Como não há lugar para onde ir após seu apartamento ter sido detonado, ele vai morar com Tyler num casarão abandonado. Juntos eles criam o “Clube da Luta”, com a proposta de encarar a vida como algo a ser experimentado. Sua relação com Tyler faz perceber outro lado de sua própria vida. Em meio as lutas, Tyler questiona a maneira como encaramos a vida cotidianamente.

"Você não é seu emprego ou o dinheiro que possui." (Tyler Durden)
"As coisas que você possui acabam te possuindo." (Tyler Durden)
"A propaganda nos faz correr atrás de coisas e a trabalhar em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos." (Tyler Durden)

Com essa história podemos nos questionar sobre o que estamos fazendo de nossa vida, enquanto trabalhamos para produzir o que não consumimos, consumimos o que não é necessário, e guardamos um estoque de coisas que não utilizamos e não utilizaremos para quase nada, e, por fim, nunca nos sentimos satisfeitos.

Não podemos esquecer que um dia vamos morrer que e que nossa vida terá sido sempre a mesma se não mudarmos a maneira de encarar ela. Além disso, quando morremos não teremos mais nada, nem a nossa existência.

"Essa é a sua vida e está acabando a cada minuto." (Tyler Duyrden)
"Estamos arriscados a morrer a qualquer hora, a tragédia é que não morremos." (Marla)

São esses os temas que o "Clube da Luta" explora, a tragédia da vida, a angústia da liberdade de escolha, a necessidade de se fazer e de dar sentido ao absurdo que é a vida, em meio a condicionamentos que fomos impregnados, a nossa história e ao passado, a possibilidade que temos de mudar o rumo, encontrando e criando novos caminhos para nossa vida.

Nos propõe a refletir sobre diversas questões que permeiam a existência humana, levando em consideração seus paradoxos e contradições. Como nos relacionamos com os valores que nos foram ensinados? -E com as pessoas, coisas e situações que encontramos em nossa vida?


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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