Fenomenologia e psicoterapia

Fenomenologia e psicoterapia

Fenomenologia é um método utilizado para compreender as coisas e o ser humano, entendendo este não como um conceito separado do mundo em que vive, mas como um ser em relação.

O termo deriva de duas palavras gregas, phainomai (fenômeno) que significa aparecer ou mostrar-se, e logos, que significa estudo, explicação ou descrição, sendo então a descrição dos fenômenos.

Enquanto método de aquisição de conhecimento, ela se difere da ciência positivista, que trabalha com padrões objetivos, classificações e generalizações. E também se difere de uma concepção idealista, que acredita que cada coisa possui um sentido ideal, em sentido abstrato e separado do mundo em que vivemos.

Fenômeno é tudo aquilo que se mostra à consciência. A fenomenologia é o estudo daquilo que se mostra, na busca de compreender o fenômeno, não o que eu espero que ele seja ou o que eu relaciono com ele de antemão, mas justamente como ele se mostra.

Quando experimentamos algo, não concebemos apenas os fatos, mas também as vivências e os afetos que temos com os fatos, que dependem de nossos sentidos e significados.

“Não existem fatos, somente interpretações.”
(Nietzsche)

Nossa consciência é sempre intencional, por ser consciência de algo, enquanto que este “algo”, é sempre para uma consciência. Não há separação entre consciência e coisa em nossa experiência, pois uma é afetada pela outra.

Não há um mundo separado de nossa existência a ser desvelado, mas um mundo para uma consciência. A consciência não é somente um lugar onde guardamos ideias e memórias, mas algo que dá significado ao que observamos por meio da relação.

A fenomenologia não busca algum tipo de significado oculto para as coisas, ou tenta relacionar o que é percebido com um conceito prévio, mas justamente olhar para a coisa como ela se mostra à consciência.

Para observar as coisas tal como se mostram, a fenomenologia propõe a redução fenomenológica, onde primeiramente deixamos de lado nossos conhecimentos prévios, concepções e juízos sobre o que é observado, para observar a coisa como ela se mostra.

Neste momento, o intuito não é classificar o fenômeno, mas captar o modo como ele se mostra. Quando classifico um fenômeno, reduzo ele a um conceito, posso até explicar ele, mas essa explicação fica somente a nível racional, isso não garante que eu o compreenda.

Somente depois de nos aproximarmos do fenômeno, nos distanciamos dele e buscamos nossas referências teóricas para relacionar com ele. A intenção não é partir dos fatos, mas das coisas como se mostram à consciência.

Os significados da coisa percebida vão se ampliando com as experiências que estabelecemos com ela, e as experiências vão preenchendo significados das coisas. O fenômeno vai se revelando a cada momento que é observado, vai se apresentando tal como é.

Num olhar fenomenológico, uma pessoa é vista sem julgamentos prévios, todas as classificações e concepções prontas são colocadas entre parênteses para que se possa compreender a pessoa como ela se mostra, como ela é, como se sente e como significa sua vida.

Na psicoterapia, não se trata de se ater somente aos fatos que a pessoa comenta, mas procurar compreender os afetos e os significados que ela estabelece com cada fato que vivencia. Olhar para a pessoa como ela se mostra, buscando compreender seus significados e suas experiências.

“A subjetividade deve ser o ponto de partida.”
(Sartre)

Esse procedimento requer uma postura de não supor que já sabemos o que a pessoa mostra, mas deixar a pessoa se mostrar como ela é sem fechar um diagnóstico. Deste modo, ela vai se revelando a cada momento, conforme vamos compreendo seus modos de ser, seus afetos e significados.

A fenomenologia é portanto o processo de descrever o fenômeno tal como se mostra, com intuito de compreendê-lo como ele se mostra, de modo a captar o fenômeno de maneira mais ampla, aberto a novos significados, possibilidades e contradições próprias do fenômeno e não dos conceitos que atribuímos ao que percebemos.

Na psicologia, a fenomenologia é uma proposta epistemológica alternativa à concepções tão fortemente enraizadas de ciência positivista e do idealismo psicodinâmico, possibilitando um outro caminho para a compreensão do ser humano, encarando este como um ser em construção e transformação.

Como embasamento metodológico para a prática psicoterapêutica, o uso do método fenomenológico na psicoterapia possibilita uma abertura para novas percepções e compreensões sobre fenômeno humano, em seus distintos modos de ser, na tentativa de se aproximar mais dele.

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
(Alberto Caeiro)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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