A terapia existencial não é uma técnica

A psicoterapia existencial não é uma técnica


No momento em que vivemos atualmente estamos impregnados pelo tecnicismo e pragmatismo, fica difícil para algumas pessoas compreenderem a "utilidade" de uma psicoterapia que não tem como foco uma técnica ou uma solução objetiva.

O que as pessoas buscam? O "controle" da ansiedade, "evitar" a depressão, o "domínio" de um filho adolescente "rebelde". Todos esses termos fazem parte da compreensão de mundo atual, onde a técnica e o controle são supervalorizados em diversos aspectos da vida.

Para atender essa "demanda", há uma ampla diversidade de abordagens tecnicistas, remédios de resultado imediatistas e práticas que se propõem a controlar, dominar e até "deletar" o sofrimento emocional, a angústia, a ansiedade e a depressão.

Essas propostas existem justamente por vivermos numa época onde a ciência enquanto técnica evoluiu tanto, que se tornou uma espécie de "palavra de ordem". Qualquer problema, para ser resolvido, tem de ser cientificamente estudado, comprovado, calculado, explicado e controlado.

Se o computador não liga, é só chamar o técnico para que ele corrija e volte a funcionar. Se o alarme do carro toca em momentos inadequados, basta levar ao técnico que ele corrige e volta ao normal. Se a parede está mofada é só perguntar ao técnico qual material impermeabilizante e como aplicar, e pronto!

Tudo se resolve, para tudo se tem uma técnica que alguém já estudou e chegou a um entendimento, tendo um método claro para se resolver. Essa compreensão se faz tão presente em nossa vida, que passamos a olhar as pessoas e a nós mesmos pela lente da técnica também.

As pessoas procuram a psicoterapia para "aprender a controlar os sentimentos", para "retirar a depressão", ou até para "se comunicar mais eficientemente, e conseguir o que desejam". O que elas buscam são técnicas, modelos práticos, receitas prontas.

Os avanços científicos e técnicos servem muito bem para objetos e máquinas, mas com as pessoas essas questões são um tanto mais complexas. Não há como saber qual a melhor técnica para cada pessoa, pois somos diferentes, desenvolvemos peculiaridades que distoam uns dos outros, e mudamos com o passar do tempo. O que é bom para uma pessoa pode não ser para outra, pois depende de suas buscas e interesses, não há como generalizar.

Apesar de tantos avanços na ciência e na tecnologia, pouco entendemos sobre o ser humano, sobre suas angústias, seus sofrimentos e suas dificuldades emocionais. O que para uma pessoa gerou um estado depressivo não é o mesmo que gera para outra, a maneira como uma lidou com seu sofrimento emocional e se sentiu melhor consigo mesma, não é a mesma que outra pessoa.

Não há como definir objetivamente e universalmente como "controlar", "dominar" ou "evitar" um sentimento de tristeza, isso depende de muitos fatores que envolvem diversas experiências de vida de uma pessoa, o que ela relaciona com tristeza, e como este sentimento é experimentado subjetivamente.

Como comparar a tristeza de uma pessoa que perdeu um parente próximo, com a tristeza de outra que não passou num concurso público que tanto desejava, ou a tristeza de alguém que se esqueceu de comprar um maracujá na feira? São pessoas, momentos, condições e tristezas diferentes, não há como comparar.

Por isso mesmo, não há como estabelecer uma técnica objetiva para lidar com o ser humano, que sirva para todos da mesma maneira. E neste sentido, a psicoterapia existencial se propõe a colaborar com a pessoa a se aproximar de si mesma e de suas experiências, de seus afetos e desafetos, para se conhecer mais profundamente e compreender melhor seus sentimentos, subas buscas e sua história de vida.

Nesta proposta, o papel do psicoterapeuta não é "curar" ou "controlar" um sentimento, mas buscar compreender e encontrar meios para lidar de maneira saudável com o que sente, promovendo a autonomia da pessoa sobre suas escolhas, e não se colocando como um "detentor da solução de seus problemas".

O psicoterapeuta existencial não tem como foco ser um técnico, que diz às pessoas o que devem fazer ou como devem fazer. Diferente disso, ele atua como um meio para que a pessoa perceba melhor seus sentimentos, o que lhe faz bem e o que não lhe faz, ampliando suas possibilidades existenciais para lidar com suas dificuldades e fazer escolhas mais favoráveis em sua vida.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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