Leis naturais e costumes humanos


No início da filosofia ocidental, por volta do século VI a.C., os primeiros filósofos da Grécia Antiga, como Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes se questionavam sobre os eventos naturais, a physis, buscando entender como eles aconteciam e se transformavam.

Pouco tempo depois, por volta do século V a.C., apareceram outros filósofos, como Protágoras, Sócrates e Demócrito, que passaram a se interessar por questões humanas, como os valores, as opiniões e a ética, temas que podemos chamar de nomos, que estão relacionados com as normas e convenções humanas.

O contato com as diferentes culturas e modos de organização humana, com distintos costumes e regras de conduta de cada agrupamento, possibilitou a compreensão de que seus valores não são únicos nem universais, mas relativos a cada povo e período.

Os filósofos sofistas perceberam que os modos de ser humano não são "naturais", mas resultantes das próprias convenções humanas, e que variam de cada grupo de pessoas. Segundo estes filósofos, cada homem é a medida de sua própria verdade.

"O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." (Protágoras de Abdera)

A palavra "sofista" deriva do grego sophistés, está relacionada com sóphos, que significa saber, ou sabedoria. Os sofistas marcaram a transição do período cosmológico da filosofia para o período antropológico, com questionamentos sobre o ser humano e seu entorno.

Eles constataram que havia uma diferença entre a physis e o nomos, que se trata do contraste entre as leis naturais e as convenções humanas. As primeiras são leis da natureza, que podemos descobrir mas não criar ou alterar. Já as convenções humanas são costumes, regras e normas, que constituem a realidade que é criada pelos seres humanos e por eles transformada.

Nós, enquanto seres humanos, não somos somente resultado das leis naturais da physis, mas também das convenções sociais do nomos, de modo que podemos intervir e modificar elas. Os costumes são criados e modificados por nós mesmos.

Porém, os sofistas não foram bem vistos em sua época. Platão que era discípulo de Sócrates, os via como impostores e "falsos sábios". Como historicamente o platonismo se desenvolveu como um forte elemento de nossa cultura, passamos a ver os sofistas com maus olhos.

Platão acreditava que existiam dois mundos, o mundo ideal, composto pelas essências das coisas que são permanentes e universais, do qual não temos acesso; e o mundo sensível, que é o mundo material dos sentidos, onde vivemos, onde as coisas são meras aparências imperfeitas de suas essências.

Com isso foi suprimida a pluralidade de modos de ser e de interpretar a realidade, influenciando futuramente o método científico na modernidade e todo o modo de se entender a ciência e o ser humano embasada em questões racionais, permanentes, absolutas e imutáveis.

Quando estudamos o ser humano e tudo que envolve a existência humana, precisamos retomar a concepção do nomos, pois não somos uma reprodução imperfeita de uma essência, cada um de nós é um ser que se desenvolve de seu modo em suas circunstâncias, de acordo com o espaço em que está inserido.

Compreender o ser humano como um ser que não está somente submetido às leis naturais, mas que se transforma em sua relação com os espaços que habita e com as pessoas que convive, nos possibilita traçar novos caminhos e constatar que a transformação é possível.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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