A normalidade e a loucura


A reflexão sobre o que é normal ou o que é saudável no sentido psicológico gera muitas questões abordadas por diversos autores, como Friedrich Nietzsche, Georges Canguilhem, Michel Foucault, entre outros.

Distintas concepções sobre normalidade e loucura foram traçadas, porém não é possível estabelecer uma única definição do que seja "normal" para todos. Não existe um padrão de saúde que seja igual para todos, pois cada pessoa é uma.

Avaliar uma pessoa como "louca" por ser diferente maioria, é um tanto contraditório e precipitado, pois existem diversas maneiras de ser e de viver a vida. Além disso existem diferentes normas em cada agrupamento social e cultural. Como então será possível adotar um como "normal" e outro como "louco"?

Definir uma norma como padrão de saúde e ver as pessoas que não aderem a esta norma como "loucas" é uma atitude autoritária e etnocêntrica. A saúde emocional não é um modelo estanque, mas um processo.

Os problemas e as dificuldades que atravessamos são condições da própria vida. Todas pessoas atravessam por crises, dilemas e paradoxos, porém algumas as experimentam de modo mais intenso, podendo fazer com que se sintam paralisadas ou impedidas, mas isso não significa que a pessoa seja "doente" ou "anormal".

É preciso rever o que entendemos por "loucura" e "normalidade". O fato de uma pessoa não viver do modo como estamos acostumados, não significa que esteja experimentando um quadro patológico, pois não somos modelos de saúde mental.

Cada pessoa é uma, coexistem diferentes modos de ser e distintas concepções do que é bom ou ruim. Nossos valores são reflexos de nossas escolhas, correspondem ao que para nós é certo ou errado, bom ou ruim, inclusive o que acreditamos que deve ser feito ou não.

Nós não somos como máquinas, que apresentam comportamentos constantes e regulares, mas a cada momento nos sentimos de uma maneira, pois estamos sempre em movimento e transformação. O que para uma pessoa faz bem, pode não fazer para outra, o que para num dia fez bem, num outro pode já não fazer mais.

A concepção de normalidade que vemos nos meios de comunicação de massa refere-se muitas vezes a um estilo de vida limitador: pessoas que vivem de aparências, fingindo ser o que não são, e julgando os que não fazem o mesmo como "errados" ou "problemáticos".

Algumas pessoas acreditam que quem não vive de acordo com seu padrão, ou que escolhe coisas diferentes, é "doente" ou "tem algum problema". Essa interpretação é intolerante e discriminadora para com o outro, por não reconhecer que as pessoas possam viver de outra maneira que não seja a sua.

Viver tentando corresponder a um padrão não é sinônimo de saúde, pelo contrário muitas pessoas sofrem por tentarem se ajustar a uma norma, para serem bem vistas e aceitas socialmente, se obrigam a fazer o que não se sentem bem, mostrando-se como não são, se anulando e gerando cada vez mais sofrimento emocional.

O normal para uma pessoa pode não ser para outra, isso depende dos interesses e valores cada um. Não há que se preocupar em ser normal ou seguir um padrão, o mais importante ir de encontro com o que se sente bem para si, independente de rótulos ou expectativas alheias.

Na psicoterapia existencial, não se trabalha com conceitos de "normalidade" ou de "loucura", nem menos há uma tentativa de "curar loucuras", mas possibilitar o encontro da pessoa consigo mesma para ampliar modos de ser que sejam saudáveis para si, expandindo suas possibilidades existenciais.

“Não existe uma saúde em si, e todas as tentativas de definir tal coisa fracassaram miseravelmente. Depende do seu objetivo, do seu horizonte, de suas forças, de seus impulsos, seus erros e, sobretudo, dos ideais e fantasias de sua alma, determinar o que deve significar saúde também para seu corpo.”
(Friedrich Nietzsche)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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