O existencialismo é um humanismo

O Existencialismo é um Humanismo é um pequeno livro que sintetiza muitas das principais questões do pensamento existencialista. Foi escrito em 1964, pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre.

O livro foi escrito baseado numa palestra chamada "Existencialismo é um Humanismo" que Sartre deu no Club Maintenant em Paris, em 29 de Outubro de 1945, visando esclarecer sobre o existencialismo.

Segue abaixo alguns fragmentos originais do livro, mais especificamente da edição: O existencialismo é um humanismo, Jean-Paul Sartre. Tradução de João Batista Kreuch, 4ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

Fragmentos do livro:

Por existencialismo, entendemos uma doutrina que torna a vida humana possível, e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação implicam um meio e uma subjetividade humana.

Que significa, aqui, que a existência precede a essência? Significa que o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em seguida. Se o homem, na concepção do existencialismo, não é definível, é porque ele não é, inicialmente, nada. Ele apenas será alguma coisa posteriormente, e será aquilo que ele se tornar. Assim, não há natureza humana, pois não há um Deus para concebê-la.

O homem nada é além do que ele se faz. Esse é o primeiro princípio do existencialismo.

Mas se realmente a existência precede a essência o homem é responsável pelo que é. Assim, a primeira decorrência do existencialismo é colocar todo homem em posse daquilo que ele é, e fazer repousar sobre ele a responsabilidade total por sua existência.

Quando dizemos que o homem faz escolhas por si mesmo, entendemos que cada um de nós faz essa escolha, mas, com isso, queremos dizer também que, ao escolher por si, cada homem escolhe por todos os homens.

Dostoiévski escrevera: "Se deus não existisse, tudo seria permitido". É este o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, consequentemente, o homem encontra-se desamparado, pois não encontra nem dentro nem fora de si mesmo uma possibilidade de agarrar-se a algo. Sobretudo, ele não tem mais desculpas. Se, com efeito, a existência precede a essência, nunca se poderá recorrer a uma natureza humana dada e definida para explicar alguma coisa; dizendo de outro modo, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontraremos à nossa disposição valores ou ordens que legitimem nosso comportamento. Assim, nem atrás de nós, nem à nossa frente, ou no domínio numinoso dos valores, dispomos de justificativas ou escusas. É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, pois ele não se criou a si mesmo, e, por outro lado, contudo, é livre, já que, uma vez lançado no mundo, é o responsável por tudo aquilo que faz.

O homem, sem nenhum tipo de apoio nem auxílio, está condenado a inventar a cada instante o homem.

Nenhuma regra de uma moral genérica pode indicar o que devemos fazer; não existem sinais outorgados no mundo.

Só existe realidade na ação. O homem não é nada mais que seu projeto, ele não existe senão na medida em que se realiza e, portanto, não é outra coisa senão o conjunto de seus atos, nada mais além de sua vida.

Para o existencialista, não existe outro amor do que aquele que se constrói.

Um homem se compromete em sua vida, traça seu perfil, e fora dessa figura não há nada.

O existencialista quando descreve um covarde declara que este covarde é responsável por sua covardia. Ele não é assim por ter um coração, um pulmão ou um cérebro covarde, ele não é assim a partir de uma organização fisiológica, mas sim porque ele se modelou um covarde por meio de seus atos.

No fundo, é isso que as pessoas gostariam de pensar: se você nasce covarde, você estará perfeitamente sossegado, pois não poderá fazer nada em relação a isso, você será assim a vida inteira, não importa o que faça; se você nasce herói, igualmente poderá ficar tranquilo, pois será herói a vida inteira, vai beber como um herói, comer como um herói. Já o existencialista diz que o covarde se faz covarde, e o herói se faz herói. Existe sempre uma possibilidade para o covarde deixar de ser covarde e para o herói deixar de ser herói.

Vocês veem que o existencialismo não pode ser considerado uma filosofia do quietismo, uma vez que define o homem pela ação; tampouco pode ser considerado uma descrição pessimista do homem: não há doutrina mais otimista, pois ela coloca o destino do homem nele mesmo; também não pode ser considerado uma tentativa de desencorajar o homem de agir, já que afirma que não existe esperança senão em sua ação, e a única coisa que permite ao homem viver é o ato.

Embora seja impossível encontrar em cada homem uma essência universal que seria a natureza humana, existe, no entanto, uma universalidade humana de condição. Não é por acaso que os pensadores contemporâneos preferem falar da condição do homem a falar de sua natureza. Por condição eles entendem, com maior ou menor clareza, o conjunto de limites a priori que traçam sua situação fundamental no universo. As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo em uma sociedade pagã ou senhor feudal ou proletário. O que não varia é a necessidade, para ele, de estar no mundo, trabalhar, conviver com outras pessoas e ser, no mundo, um mortal.

A escolha é possível em um sentido, mas o que não é possível é não escolher. Eu sempre posso escolher, mas tenho que saber que se não escolho, isso também é uma escolha.

Não definimos o homem senão em relação a um engajamento. Cada vez que o homem escolhe seu engajamento e seu projeto em toda sinceridade e toda lucidez, não importando, aliás, que projeto seja esse, é impossível fazer com que ele prefira outro.

Ao definirmos a situação humana como sendo de uma escolha livre, sem escusas e sem auxílios, todo homem que se refugia por trás da desculpa de suas paixões, todo homem que inventa um determinismo, é um homem de má-fé.

Temos que encarar as coisas como elas são. E, além disso, dizer que nós determinamos os valores não significa outra coisa senão que a vida não tem sentido, a priori. Antes de começarmos a viver, a vida, em si, não é nada, mas nos cabe dar-lhe sentido, e o valor da vida não é outra coisa senão este sentido que escolhemos.

O existencialista nunca tomará o homem como fim, pois ele sempre está por fazer-se.

O homem está constantemente fora de si mesmo; é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz o homem existir e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele é capaz de existir. Esta ligação da transcendência, como constitutiva do homem e da subjetividade, no sentido em que o homem não se encontra encerrado nele mesmo, mas sempre presente num universo humano, é o que denominamos de humanismo existencialista. Humanismo, porque lembramos ao homem que não há outro legislador senão ele mesmo, e que é no desamparo que ele decidirá por si mesmo; e porque mostramos que não é voltando-se para si mesmo, mas sempre buscando fora de si um fim que consiste nessa liberação, nesta realização particular, que o homem se realizará precisamente como homem.

O homem precisa encontrar-se ele próprio e convencer-se de que nada poderá salvá-lo de si mesmo. Neste sentido, o existencialismo é um otimismo, uma doutrina de ação.
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