Como é o existencialismo na prática?


O existencialismo pode parecer incompreensível, confuso e até abstrato para alguns, por conta disso escrevi esse texto para descrever de modo a facilitar o entendimento de sua aplicação prática, de acordo com a filosofia existencial.

Uma das características do existencialismo são as diferenças propostas por cada autor, porém há algumas questões que estão presentes em seus diversos representantes, entre eles Sören Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre.


1 - Perceber-se responsável por sua vida


Uma das questões principais do existencialismo é nos perceber e agir responsáveis pelas escolhas que fazemos em nossa vida. Somos responsáveis pelo que escolhemos e pelo rumo que nossa vida segue, inclusive quando não escolhemos, somos responsáveis por não escolher, pois escolhemos "não escolher".

Cada escolha nos proporciona uma consequência, e a vida de cada pessoa é consequência das escolhas que ela faz para si mesma e das condições do meio em que vive. Se você está lendo este texto agora foi porque pesquisou sobre esse tema e encontrou esse texto e clicou para ler, ou alguém te indicou a leitura, mas de todo modo você escolheu ler, e está agora lendo.

Quando você sai de sua casa para o trabalho, você pode escolher ir a pé, ir de ônibus, de bicicleta, de carona, de metrô ou em veículo próprio, dependendo de suas circunstâncias e condições e do que sua cidade e bairro oferecem. Mas há escolhas, e essas escolhas constituem a sua vida e seu modo de ser no mundo.

Muito do que você vivemos em nossa vida é resultado de nossas escolhas, o modo como estamos hoje e o que estamos fazendo foi, de certo modo, consequência de escolhas que fizemos em nosso passado, sejam elas conscientes ou não...


2 - Compreender sua história e contexto


Segundo o existencialismo, não somos seres atemporais ou universais, mas vivemos a nossa vida num período histórico e num espaço físico, marcado pelas condições, situações e uma série de fatores que atravessam a nossa existência.

Uma pessoa que viveu na Europa da Idade Média, ou um índio que viveu no Brasil antes de 1500, tiveram condições materiais, concepções de vida e valores completamente diferentes. O modo como cada um vive sua vida tem relação intrínseca com o tempo histórico e o local onde que vive.

Podemos perceber isso facilmente quando vemos pessoas da melhor idade com dificuldade de compreender os modos de viver dos jovens, pois o que para eles era correto em sua juventude já não faz mais sentido para os jovens de hoje, e o que para eles era tido por incorreto hoje virou "moda".

Perceber a nossa condição histórica nos faz compreender melhor a nós mesmos, nossas particularidades, as diferenças entre gerações, entre povos e culturas. Perceber isso torna mais abertos para compreender o outro. Quando passamos a respeitar nossas particularidades, respeitamos também as dos outros, entendendo melhor as singularidades.


3 - Liberdade de ser como você é


Para o existencialismo não há nada que determine previamente o modo de ser de cada pessoa, ou que defina como cada um deve viver sua vida. Cada pessoa é livre para se fazer a si mesma por meio de suas escolhas. Podemos viver nossa vida de acordo com o que acreditamos e desejamos.

Se não estamos satisfeitos com a vida que estamos levando podemos mudar os rumos e fazer novas escolhas. São as nossas escolhas que nos levam a novos caminhos. Somos livres para fazer o que quiser de nós mesmos, e somos eticamente responsáveis pelas escolhas que fizermos.

Cada pessoa é livre para ser como quiser, não há um modo correto e único de viver a vida, cada um escolhe como deseja viver e se torna responsável pelas escolhas que fizer. Não somos condenados por nosso contexto cultural e histórico, podemos sempre intervir e modificar, experimentando novas e diferentes formas de ser.

Quanto for tomar uma decisão tente perceber se está escolhendo por si mesmo, ou pelo que esperam que você faça. Quando suas escolhas partem de seu referencial e não do referencial externo, você está sendo autêntico consigo mesmo.


4 - Explorar a sua criatividade


O existencialismo reconhece e valoriza a expressão pessoal como caminho para a criatividade e para o encontro consigo mesmo. Experimentamos o mundo a partir de nossos afetos e o exprimimos por meio de nossa liberdade de ser.

Você pode encontrar um meio para expressar seus desejos e aflições, seja pela escrita, pintura, dança, desenho, atividade física, teatro ou até por meio de uma canção. Experimente novas maneiras de fazer suas atividades, a vida não é uma regra a ser seguida a risca, somos nós que inventamos a vida, então crie e faça como se sentir melhor.

A vida é uma invenção, cada pessoa é livre para criar seu próprio sentido de vida, e isso é conquistado por conta própria e não por definições prontas, dogmas ou paradigmas.


5 - Respeitar a si mesmo e os outros


Como cada pessoa é livre para viver de sua maneira e fazer suas escolhas. O que é bom para uma pessoa pode não ser para outra, e para convivermos em sociedade temos necessariamente de respeitar as escolhas das pessoas.

Respeitar não significa, necessariamente, concordar. Podemos discordar do modo de ser de uma pessoa, mas respeitar ela. Respeitar significa aceitar a pessoa como ela é, seja como ela for, e não querer que ela seja como nós somos ou como esperamos que ela seja.

Sendo assim, valorize a si mesmo e a sua identidade própria, permita-se ser como você se sente bem sendo, e também valorize as outras pessoas, permita que elas sejam também como são ou como desejam ser. Cada pessoa é livre para ser e viver de seu modo.

Você é você, o outro é o outro. Não se compare com os outros, viva deixe que cada um viva de seu modo, ao invés de tentar moldar elas para que sejam o que você espera. Seja como você é e permita que o outro seja como ele é.


6 - Ter contato com seus sentimentos


Não somos somente seres racionais, mas também atravessamos várias emoções todo o tempo, boas e ruins, satisfatórias e desastrosas. A questão é que nossos sentimentos alteram o modo como nos relacionamos com os outros, com as situações e com nós mesmos.

Nosso contato com o mundo externo e interno é atravessado por nossos afetos. Estabelecemos uma relação afetiva com os outros. Reconhecer nossos sentimentos é um processo muito valioso para perceber o que nos move, o que nos faz sentir bem, o que nos alegra, e também o que nos faz mal, o que nos entristece, o que nos derruba.

Perceber como nos sentimos é um caminho para o nosso autoconhecimento. Com isso, podemos fazer escolhas mais condizentes com o que sentimos, indo de encontro com o que nos faz bem e amplia possibilidades e não ao que nos diminui ou bloqueia.


7 - Não ficar retomando o passado, mas mudar o presente


O existencialismo compreende que nossa experiência de vida é temporal e acontece sempre no tempo presente. Não há como voltar numa situação passada nem nos colocar num momento futuro, pois estamos sempre no momento presente.

Deste modo, não faz sentido ficar remoendo por uma situação que já passou ou uma experiência que não é mais a mesma, pois estamos sempre em transformação, tudo está sempre se modificando, o que temos hoje é o que estamos vivendo agora.

As coisas passam, e nós também. Nossas novas experiências não são as mesmas, pois nos transformamos e o mundo a nossa volta também. Como escreveu Sartre, "o mais importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós fazemos com o que nos fizeram."

Não adianta ficar se queixando do que já passou, mas rever o que podemos mudar no momento presente com relação ao que passou. Não é possível voltar no tempo e reviver o passado, ou alterá-lo. O que temos é o presente, faz mais sentido buscar o que podemos fazer agora com o que nos aconteceu.


8 - Criar novos sentidos para a sua vida


Chegamos num mundo com valores e conceitos já estabelecidos para a vida e os modos de viver, porém não estamos no mundo para repetir o que nos ensinam, podemos ir além de nossas condições e criar novos modos de viver a vida.

De acordo com a concepção existencialista, a vida não tem um sentido em si, somos nós que atribuímos sentido a ela, portanto somos livres para criar a vida de nosso modo, de acordo com o que acreditamos e desejamos.

Não precisamos viver seguindo regras prontas, podemos criar nossos próprios valores, mudar as coisas e propor novos caminhos para a humanidade e para nós mesmos!


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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