O que é existencialismo

O livro "O que é existencialismo", do autor João da Penha, é uma breve introdução à filosofia existencialista, que apresenta também alguns de seus principais autores: Kierkegaard, Heidegger e Sartre.

Faz parte da Coleção Primeiros Passos, e, apesar de ser um pequeno livro, ele apresenta uma introdução bem clara e sucinta essa corrente filosófica e literária com foco na existência humana, em seu aspecto concreto e singular.

Como há muitas interpretações preconceituosas sobre o existencialismo, o autor buscou caracterizar os traços gerais dessa abordagem filosófica e de seus antecedentes. Segue alguns fragmentos do livro abaixo:


O QUE É EXISTENCIALISMO

A experiência traumática da guerra gerou um ambiente de desânimo e desespero, sentimentos que atingiram particularmente a juventude, descrente dos valores burgueses tradicionais e da capacidade do ser humano solucionar racionalmente as contradições da sociedade.

Historicamente, a palavra essência é anterior. Essentia, forma latina, deriva do verbo esse, ser. Quando os latinos se entregavam à meditação filosófica, a pensar aquilo que é, diziam estar pensando na essência da coisa. Só muito mais tarde surgiria em latim a palavra existentia, existência, derivada de existere, que significa sair de uma casa, um domínio, um esconderijo. Mas precisamente: existência, na origem, é sinônimo de mostrar-se, exibir-se, movimento para fora. Daí denominar-se existencialista toda filosofia que trata diretamente da existência humana. O existencialismo, consequentemente, é a doutrina filosófica que centra sua reflexão sobre a existência humana considerada em seu aspecto particular, individual e concreto.

É bastante difundida a opinião de que na filosofia existencialista, pela própria natureza de seus temas, a contribuição pessoal predomina sobre os demais aspectos. De acordo com esse raciocínio, existiram vários tipos de existencialismo, cada um correspondendo a determinado autor, à sua visão individual dos problemas humanos, às particularidades da vida privada do filósofo.


KIERKEGAARD

Descrente da possibilidade de algum sistema resolver as diferenças entre os indivíduos, Kierkegaard insurgiu-se contra tal concepção. O indivíduo, dizia, não pode ser mera manifestação da ideia.

A existência humana, na versão de Kierkegaard, não pode ser explicada por meio de conceitos, de esquemas abstratos. Um sistema, insiste, promete tudo, mas não pode oferecer absolutamente nada, pois é incapaz de dar conta da realidade, sobretudo da realidade humana. O sistema é abstrato, a realidade é concreta. O sistema é racional, a realidade é irracional. A realidade é tudo, menos um sistema.

A realidade da qual os indivíduos têm maior conhecimento é a sua própria realidade, a única que interessa de fato. Só a realidade singular, concreta, interessa, e apenas esta o indivíduo pode conhecer. Só podemos nos apropriar da realidade subjetivamente. “A subjetividade é a verdade, a subjetividade é a realidade”, escreveu Kierkegaard. O universal, diz, não passa de uma mera abstração do singular.

O singular é o homem. A existência individual, assim concebe Kierkegaard, é para ser vivida, dispensando ser explicada racionalmente, confirme pretendia Hegel. Kierkegaard exalta o concreto, o singular, o homem enquanto subjetividade.

Não existem, segundo Kierkegaard, razões lógicas que determinem como cada um deve se conduzir na vida.


HUSSERL

Husserl é o criador do método fenomenológico. Em consonância com a humanização das ciências, Husserl introduz a noção de intencionalidade. A intencionalidade, eis os postulado básico da fenomenologia, é a característica fundamental da consciência, pois é por meio dela que aquilo que um objeto é se constitui espontaneamente na consciência. A intencionalidade estabelece uma nova relação entre o sujeito e o objeto, o homem e o mundo, o pensamento e o ser, ambos inseparavelmente ligados.

A consciência já se encontra voltada para objetos, orientada em sua direção de forma imediata, existe visando a algo, dirigida para alguma coisa.

As ideias só existem porque são ideias sobre coisas, ambas constituem um único fenômeno, por isso estão indissoluvelmente ligadas. A fenomenologia busca captar a essência mesma das coisas, descrevendo a experiência tal como ela se processa, de modo a que se atinja a realidade exatamente como ela é. Para que se possa chegar a isso, Husserl propõe que o indivíduo suspenda todo o juízo sobre os objetos que o cercam. Mais precisamente: nada afirme nem negue sobre as coisas, adotando uma espécie de abandono do mundo e recolhimento dentro de si mesmo, o que na linguagem husserliana é denominada “redução fenomenológica” ou epoquê, palavra grega que significa suspensão, cessação. Husserl foi buscar o termo na filosofia medieval que chamava de epoquê o estado de repouso mental por meio do qual nada afirmamos ou negamos.

As coisas, diz o criador da fenomenologia, são tais como os fenômenos as apresentam à nossa consciência. As ideias só existem porque são ideias sobre coisas. Consciência e fenômeno não existem separados um do outro.


HEIDEGGER

Em Ser e tempo, o propósito de Heidegger é discutir o Ser, é estabelecer uma ontologia geral, descrevendo os fenômenos que o caracterizam tais como se apresentam à consciência.

Para Heidegger, há uma “questão do Ser”, questão que não foi resolvida. O pensamento ocidental jamais resolveu a questão do Ser, que é seu próprio fundamento. Heidegger não se ocupa de perguntar o que é o Ser, qual sua definição. Seu interesse é descobrir-lhe o significado.

Não é fácil discutir o Ser. Defini-lo, segundo Heidegger, implica obrigatoriamente transformá-lo num ente, isto é, em alguma coisa perfeitamente determinada, concreta, o que, logicamente, lhe retiraria o caráter de conceito universal. Mas, ao mesmo tempo, só se pode falar em Ser relacionando-o a um ente. Para que exista o Ser é necessário que exista o ente.

Dasein é o ser que se encontra aí, é o ente, é tudo aquilo de que falamos, é o ser singular, concreto, é o ser aí. Distingue-se, dessa forma, do Ser. O Ser constitui o campo ontológico, enquanto o Dasein pertence ao campo do existente, daquilo tal qual é.

O Dasein é um “Ser-no-mundo”, caracterização que Heidegger resume com o termo facticidade. O “Ser-no-mundo” implica a relação com os outros, que o torna um “Ser-com”. Existindo, o Dasein existe no tempo, dimensão essencial do “Ser-aí”. O Dasein é nossa existência cotidiana, é o indivíduo, é o homem.

O ser que existe é o homem, escreve Heidegger. Só o homem existe. As pedras são, mas não existem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não existe. Só para o homem tem sentido algo como existir.

É justamente por existir que o homem só pode definir-se a partir de seu ser existente, quer dizer, é o fato de existir que possibilita ao indivíduo ser ou não ser o que é. Enquanto a pedra é, e assim será sempre, o homem existe e a partir de então define o que deverá ser.

O homem está no mundo, sim, mas distintamente dos objetos. O homem existe, é uma presença no mundo: ele é o Dasein.


SARTRE

A existência precede a essência. As noções de essência e existência são contrapostas entre si. A essência de uma coisa é aquilo que essa coisa é. A essência não implica obrigatoriamente a existência concreta do objeto no qual penso. A existência seria assim algo de concreto, enquanto a essência corresponderia a algo de abstrato.

Dependendo da primazia concedida a um dos dois termos, uma corrente filosófica é classificada de essencialista - prioridade à essência - ou existencialista - prioridade à existência.

Não há, por conseguinte, nada a priori a definir o homem, nenhum carater essencial que o defina como algo dado para sempre. Sua essência surge como algo resultante de seus atos, daquilo que ele faz de si mesmo, algo a se realizar. O homem não é nada mais do que aquilo que se projeta ser.

Com isso, Sartre quer dizer que, quando nasce, o homem é nada. Não existem ideias inatas, anteriores ao surgimento do homem e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir. As ideias de homem as extrai de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe com o tempo, torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência. Esta é que irá caracterizá-lo, mostrando-o em que se tornou - se bom ou mal, agradável ou antipático, destemido ou covarde, etc. A essência humana, portanto, só aparece como decorrência da existência do homem. São seus atos que definem sua essência. Logo, inicialmente o homem existe - e só depois é possível defini-lo, conceituá-lo. Enfim, da existência decorre a essência.

No homem, a existência precede a essência porque só ele é livre. Ao contrário dos outros seres, o homem não é predeterminado. Na semente de uma planta encontra-se tudo aquilo que ela será ao desenvolver-se normalmente. O homem, diversamente dos demais objetos existentes no mundo, é livre. Ele é pura liberdade. A cada momento, o homem tem de escolher aquilo que será no instante seguinte. O homem deve ser inventado todos os dias.

É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser - escolhe sua essência e busca realizá-la. É a escolha que faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha.

Se a cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe criar os valores sob os quais dirigirá sua vida. O homem, diz Sartre, não é nada mais que o seu projeto, só existe na medida em que o realiza através da série de seus atos. Se, o homem é totalmente livre, é, consequentemente, responsável por tudo aquilo que escolhe e faz. Não há desculpas para ele. O sucesso ou fracasso de seus atos são obras suas; não lhe é permitido culpar os outros ou as circunstâncias pelos seus erros.

A liberdade é a capacidade do indivíduo de decidir sobre sua vida, escolhendo-a e por ela se responsabilizando. Essa liberdade, entretanto, não é absoluta, já que o homem vive uma existência concreta, situada no tempo e no espaço, portanto, condicionada, limitada pela sociedade com suas regras e convenções, às quais seus integrantes têm de se submeter. Por isso, em determinados momentos, o homem entra em conflito com o meio social ao qual pertence. O homem, então conscientiza-se das limitações impostas à livre manifestação de sua existência.

O indivíduo se angustia pois se vê na situação de escolher sua vida, seu destino, sem buscar orientação ou apoio em ninguém. Sente-se desamparado. Livre, sendo o projeto que fizer para si, responsável por seu próprio destino, já não há mais desculpas para ele. O homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não criou a si próprio; mas livre, porque, lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer.

Sartre, enfim, defende a tese de que o existencialismo é um otimismo, uma doutrina da ação. Seu desespero, diz, é ativo, pois obriga o homem a agir.


Fonte:
João da Penha, O que é existencialismo. Editora Brasiliense, 2014.
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