Psicoterapia sem julgamentos


A relação psicoterapêutica sem julgamentos acontece quando o terapeuta não foca sua atenção somente na dificuldade da pessoa atendida, mas na pessoa como um todo.

Em diversos momentos na vida atravessarmos dificuldades, e essas dificuldades não correspondem a totalidade de nossa existência, muito menos nos constitui como pessoa, elas envolvem momentos e aspectos de nossa vida.

Cada pessoa é um todo, que composta por sua história de vida, suas experiências, seus gostos e desgostos, seus desejos e expectativas, os espaços onde transitou e vive, as pessoas com as quais se relacionou, os livros que leu, os filmes que existiu. Enfim, ninguém é somente uma dificuldade.

Quando uma pessoa comunica sua dificuldade, há uma oportunidade de revelar um pouco sobre sua existência e seus modos de ser. Escutar a pessoa, em seus diversos aspectos, possibilita que ela se conheça mais profundamente.

Cada dificuldade que uma pessoa comunica representa um fragmento de sua existência. Quando classificamos sua experiência com termos como "ansiedade", "estresse" ou "depressão", limitamos sua experiência existencial. Mais importante que isso é proporcionar condições para que cada pessoa perceba o significado de suas dificuldades para si.

Possibilitar ao indivíduo perceber e lidar com os obstáculos que está atravessando e impedindo o fluir de sua vida, favorece sua autonomia perante a própria existência.

Não há como ajudar outra pessoa classificando ela num problema como "ansiedade", "estresse" ou "depressão", pois assim estaremos rejeitando sua existência como um processo em movimento. Todas dificuldades que uma pessoa atravessa surgiram em algum momento de sua existência, em meio as suas vivências consigo mesma e com os outros.

Conforme a pessoa é escutada em seu modo de ser e sem julgamentos, ela passa a se perceber e se compreender melhor, estabelecendo maior contato com sua existência, com seus modos de ser, sentir, agir e reagir a diferentes situações.

Quando não nos percebemos, sentimos dificuldades em fazer escolhas e agir perante certas situações, nos sentimos pequenos, impedidos e aprisionados. Conforme percebemos como nos sentimos e como estamos sendo afetados por nossas vivências, passamos a fazer escolhas mais conscientes e responsáveis em nossa vida.

Perceber e compreender nossas experiências e sentimentos é um passo para vivermos mais afinados com o que realmente somos. Ser quem somos implica em reconhecer as emoções que sentimos, sejam elas amor ou ódio, alegria ou tristeza, satisfação ou raiva, surpresa ou decepção.

A prática da psicoterapia demanda um espaço permissivo, onde a pessoa possa ser como é e se comunicar realmente como se sente, sem necessidade de esconder-se em "máscaras" ou "fachadas". Deste modo, a pessoa passa a se avaliar por si mesma, e não pelos olhares dos outros, tornando-se aos poucos mais confiante consigo mesma e desenvolvendo sua maturidade psíquica.

Eu não sou o outro, e não estou no lugar que ele está, aquilo que serve para mim pode não servir para ele. O psicoterapeuta está interessado em possibilitar a pessoa atendida ter suas experiências e aprender por si mesma, fazer suas próprias descobertas, seguindo o seu próprio caminho e encontrando as soluções que lhe pareçam mais adequadas.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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