Friedrich Nietzsche - fragmentos de livros

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA (1872)

Para poderem viver, os gregos tinham de criar esses deuses, pela mais profunda das necessidades: processo este que bem poderíamos representar-nos como se, a partir da ordem divina primitiva, titânica, do pavor tivesse sido desenvolvida, em lenta transição, por aquele impulso à beleza, a ordem divina, olímpica, da alegria: como rosas irrompem de um arbusto espinhoso. De que outro modo aquele povo, tão apto unicamente para o sofrimento, teria podido suportar a existência, se esta, banhada em uma glória superior, não lhe tivesse sido mostrada em seus deuses?

Assim os deuses legitimam a vida humana, vivendo-a eles mesmos - a única teodicéia satisfatória!



SOBRE VERDADE E MENTIRA NO SENTIDO EXTRA-MORAL (1873)

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto.

O intelecto, como um meio para a conservação do indivíduo, desdobra suas forças mestras no disfarçe.

No homem essa arte do disfarçe chega a seu ápice; aqui o engano, o lisonjear, mentir e ludibriar, o falar-por-trás-das-costas, o representar, o viver em glória do empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo, em suma, o constante bater de asas em torno dessa única chama que é a vaidade, é a tal ponto a regra e a lei que quase nada é mais inconcebível do que como pôde aparecer entre os homens um honesto e puro impulso à verdade.

O mentiroso usa as designações válidas, as palavras para fazer aparecer o não-efetivo; o que odeiam, no fundo não é a ilusão, mas as consequências nocivas, hostis, de certas espécies de ilusões.

O que é uma palavra? A figuração de um estímulo nervoso em sons.

Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores, e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem.

Todo conceito nasce por igualação do não-igual. O conceito é formado pelo arbitrário abandono das diferenças individuais, por esquecer-se do que é distintivo, e desperta então a representação. A desconsideração do individual e efetivo nos dá o conceito.

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.

Tudo o que destaca o homem do animal depende dessa aptidão de liquefazer a metáfora intuitiva em um esquema, portanto de dissolver uma imagem em um conceito. Cada metáfora intuitiva é individual e sem igual e, por isso, sabe escapar a toda rubricação. O conceito é somente um resíduo da metáfora.



HUMANO, DEMASIADO HUMANO (1878)
Um Livro para Espíritos Livres

Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos. Não querem aprender que o homem veio a ser, que até mesmo a faculdade do conhecimento veio a ser. Tudo veio a ser; não há fatos eternos: assim como não há verdades absolutas. - Portanto, o filosofar histórico é necessário de agora em diante e, com ele, a virtude da modéstia.

A significação da linguagem para o desenvolvimento da civilização. Na medida em que o homem acreditou, por longos lances de tempo, nos conceitos e nomes das coisas como em aeternae veritates, adquiriu aquele orgulho com que se elevou acima do animal: pensava ter efetivamente, na linguagem, o conhecimento do mundo. O formador da linguagem não era tão modesto de acreditar que dava às coisas, justamente, apenas designações; mas antes, ao que supunha, exprimia com as palavras o supremo saber sobre as coisas; de fato, a linguagem é o primeiro grau de esforço em direção à ciência. Foi a crença na verdade encontrada, também aqui, que fluíram as mais poderosas fontes de força. Muito posteriormente - só agora - começa a despontar para os homens que eles propagaram um erro descomunal, em sua crença na linguagem.

Quem "explica" a passagem de um autor "mais profundamente" do que sua intenção não explicou o autor, mas obscureceu-o.



ASSIM FALOU ZARATUSTRA (1883/85)
Um Livro para Todos e Ninguém

O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem - uma corda sobre um abismo.

Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar.

Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator: - mas este é o criador.

Três transmutações vos cito do espírito: como o espírito se torna em camelo, e em leão o camelo, e em criança, por fim, o leão.

O que é pesado? assim pergunta o espírito de carga, assim ele se ajoelha, igual ao camelo, e quer ser bem carregado.

No mais solitário deserto ocorre a segunda transmutação: em leão se torna aqui o espírito, liberdade quer ele conquistar, e ser senhor de seu próprio deserto.

"Tu-deves" está em seu caminho, cintilante de ouro, um animal de escamas, e em cada escama resplandece em dourado: "Tu deves!"

Valores milenares resplandecem nessas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: "todo o valor das coisas - resplandece em mim".

Criar novos valores - disso nem mesmo o leão ainda é capaz: mas criar liberdade para nova criação - disso é capaz a potência do leão.

Tomar para si o direito a novos valores.

Inocência é a criança, e esquecimento, um começar-de-novo, um jogo, uma roda rodando por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.

Sim, para o jogo de criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o perdido mundo.

Ai, meus irmãos, esse deus, que eu criei, era obra humana e delírio humano, igual a todos os deuses!

Homem era ele, e apenas um pobre pedaço de homem e de eu: de minha própria cinza e brasa ele veio a mim, esse espectro, e - em verdade! Não me veio do além!

Ainda não estas livre, procuras ainda pela liberdade.

As livres alturas queres ir, de estrelas tem sede tua alma. Mas também teus maus impulsos têm sede de liberdade.

Teus cães selvagens querem sair para a liberdade; ladram de prazer em seu porão, quando teu espírito trata de soltar todas as prisões.

Ainda és para mim um prisioneiro, que pensa na liberdade.

Purificar-se precisa ainda o libertado do espírito. Muito de prisão e de mofo ainda persiste nele: puro precisa ainda tornar-se seu olho.

Novo quer o nobre criar, e uma nova virtude.

Mas, por meu amor e esperança, eu te exorto: não atires fora o herói que está em tua alma! Mantém sagrada tua mais alta esperança!

Assim falou Zaratustra.

Valores foi somente o homem que pôs nas coisas, para se conservar - foi ele somente que criou sentido para as coisas, um sentido de homem! Por isso ele se chama de "homem", isto é: o estimador.

Mutação dos valores - essa é a mutação daqueles que criam. Sempre aniquila, quem quer ser um criador.

Inesgotados e inexplorados estão ainda o homem e a terra do homem.

Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade - assim Zaratustra a ensina a vós.
A vontade de potência - a inesgotável e geradora vontade de vida.

Sim, mesmo quando manda em si próprio: também aqui tem ainda de pagar pelo mando. Por sua própria lei ele tem de se tornar juiz e vingador e vítima.

Onde encontrei vida, ali encontrei vontade de potência; e até mesmo na vontade daquele que serve encontrei a vontade de ser senhor.

Somente, onde há vida, há também vontade.



ECCE HOMO (1888)
Como Tornar-se o que se É

Derrubar ídolos - isso sim, já faz parte do meu ofício. A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, com ela a humanidade mesma se tornou, até em seus mais profundos instintos, mentirosa e falsa.

A procura por tudo o que é estrangeiro e problemático na existência, por tudo aquilo que até agora foi exilado pela moral. Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito? Cada conquista, cada passo avante no conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do asseio para consigo... Pois até agora o que se proibiu sempre, por princípio, foi somente a verdade.

Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas um aluno.

Transtrocar perspectivas: primeira razão pela qual para mim somente, talvez, é possível em geral uma "transvaloração dos valores".

Fiz de minha vontade de saúde, de vida, minha filosofia.

Um homem bem logrado advinha meios de cura contra danos, utiliza acasos ruins em sua vantagem: o que não o derruba torna-o mais forte. Está sempre em sua companhia, quer esteja com livros, homens ou paisagens.

Aqui precisamente é preciso começar a reaprender. Aquilo que até agora a humanidade ponderou seriamente nem sequer são realidades, são meras imaginações, ou, dito mais rigorosamente, mentiras provenientes dos piores instintos de naturezas doentes, perniciosas no sentido mais profundo - todos os conceitos "Deus", "alma", "virtude", "pecado", "além", "verdade", "vida eterna", ...

Uma coisa sou eu, outra são meus escritos. Não quero ser confundido - isso implica que eu próprio não me confunda.

Ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Para aquilo que não se tem acesso por vivência, não se tem ouvido.

Quem acreditou ter entendido algo de mim, havia ajustado algo de mim à sua imagem - não raro um oposto de mim, por exemplo, um "idealista".
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