Existencialismo - Jack Reynolds

O livro "Existencialismo", de Jack Reynolds oferece uma introdução acessível ao existencialismo, movimento filosófico e literário que se desenvolveu intensamente na Europa, em especial na França, durante o século XX.

Ele começa com uma análise dos antecedentes do movimento nas ideias de Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Jaspers e Marcel, antes de examinar os textos fundamentais que dão ao existencialismo seus fundamentos filosóficos: "Ser e tempo", "O ser e o nada", "Fenomenologia da percepção", "A ética da ambiguidade" e "O segundo sexo".

Segue abaixo alguns fragmentos do livro "Existencialismo", por Jack Reynolds, Coleção Pensamento Moderno, Editora Vozes, 2013.


Alguns dos temas existenciais fundamentais a serem tratados incluem: liberdade; morte, finitude e mortalidade; experiências fenomenológicas e "disposições" como angústia (ou ansiedade), náusea e tédio; uma ênfase sobre autenticidade e responsabilidade assim como a tácita condenação de seus opostos (inautenticidade e má-fé).

Em vez de nossa identidade ser determinada por nosso status biológico ou social, o existencialismo insiste que ela deve ser continuamente criada, e que existe uma ênfase resultante sobre nossa liberdade ou, no vocabulário preferido dos existencialistas, nossa transcendência.

Kierkegaard contesta a ênfase iluminista na racionalidade, assim como a sistematização excessiva da dialética hegeliana.

Para o pensamento existencial, para o qual não existem fatos externos ou valores que ditem nossa ação, embora sejamos confrontados, porém, com a necessidade de agir e escolher. Sem a orientação de regras universais de moralidade, da natureza humana ou de um Deus cognoscível, devemos dotar o mundo de significado e somente nós podemos fazer isso. Devemos realizar este ato de fé: criar o significado em que buscamos viver. Cada ato, então, que não esteja comprometido por uma forma do que Sartre chama “má-fé”, pode ser visto como um tipo de fé: como um compromisso de agir diante do “nada”e de não fingir que as coisas são impostas ou exigidas.

Para Kierkegaard, uma escolha individual, ou ato de autodeterminação, é inevitavelmente acompanhada por uma experiência de temor, em que nos damos conta de que o cálculo racional nunca será suficiente para fornecer as respostas ao paradoxo religioso, ou para outros temas de maior relevância existencial em nossas vidas

Para qualquer modo de agir, deveríamos agir como se essa ação particular fosse se repetir indefinidamente, e o imperativo de Nietzsche seria algo como: age de tal modo que você nunca pudesse dizer “isso simplesmente aconteceu”, mas antes “eu o quis assim”. É uma exaltação para experienciar genuinamente o momento.

A concepção de que não há justificação para valores, assim como sua rejeição perspectivista de qualquer padrão moral absoluto, que é claramente muito influente tanto em Camus como em Sartre.

O filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969) buscou combinar os melhores insights de Nietzsche e Kierkegaard enquanto também estendia seu pensamento ao problema em torno da relação entre filosofia e ciência.

Não existe eu predeterminado ou essencial; o eu é, em troca, somente suas possibilidades e o que ele pode tornar-se. Essa noção do eu não predeterminado, mas mais como uma orientação futura, foi diretamente influente no trabalho de seu compatriota, Heidegger, e indiretamente no de Sartre, de Beauvoir e Merleau-Ponty.

Para Jaspers, sofrimento, culpa e incerteza ocorrem quando existe um conflito entre a situação contingente e a necessidade absoluta de escolher: em outras palavras, entre a situação, que por si só não possui significado inerente, e as aspirações humanas, que buscam impor um tal significado.

Como Kierkegaard e Nietzsche, Jaspers protesta contra qualquer provisão de substitutos externos e objetivos para decisões pessoais como partido, riqueza, estado ou a mediocridade do rebanho.

Podemos sugerir que todos os existencialistas têm algum tipo de crítica ao “cientificismo”, ou mesmo à ciência. Seguindo os passos da condenação que Husserl faz ao naturalismo, os pensadores existencialistas geralmente consideram que, embora os esforços científicos sejam inestimáveis, eles não são o principal modo de nos relacionarmos com as coisas, muito menos com o mundo. O cientificismo de nossa cultura cometeu o erro de pensar que o modo científico de compreender as coisas e o mundo é o nosso único acesso à verdade, mas, como veremos em detalhe no trabalho de Heidegger e de Merleau-Ponty, bons argumentos podem ser mobilizados para sugerir que o modo científico de conhecer é, de fato, secundário aos aspectos mais práticos de nossa relação instrumental para com o mundo. Pensadores existenciais insistem que interpretar mal essa ordem de prioridade tem consequências tanto éticas como epistemológicas.

Marcel, sua importância para o existencialismo consiste principalmente em sua reintrodução da questão do corpo. Nos anos de 1920 ele declarou “Eu sou meu corpo”.

Historicamente, grande parte da tradição filosófica ocidental subestimou a importância de nossos corpos. Nossos corpos, argumentou-se, são capazes de nos enganar, e certamente não são tão confiáveis quanto o pensamento abstrato; pense em Platão e Descartes a esse respeito, que são meramente as figuras mais óbvias nessa tradição. Embora o tema do corpo no trabalho de Heidegger seja complicado, é seguro dizer que todos os pensadores existenciais do século XX enfatizaram a importância de nossa experiência vivida e corporificada, bem como de nossa relação perceptual com o mundo.

Em vez de focar na questão concernente à liberdade, ou à nossa falta dela, em O Mito de Sísifo a ênfase de Camus é sobre a natureza absurda da existência, e em como lidar com ela e continuar vivendo. O personagem referido no título, Sísifo, é um homem da mitologia grega que foi condenado a rolar uma rocha incessantemente colina acima, apesar de ser consciente de que ela inevitavelmente rolaria novamente para baixo. Para Camus esse tipo de comportamento é típico da condição humana e ele emprega o conceito do absurdo para descrever essa situação.

Em outras palavras, Camus se refere ao absurdo como a brecha entre o que os entes humanos esperam da vida e o que de fato encontram. Os indivíduos buscam por ordem, harmonia e mesmo perfeição, ainda que não possam encontrar evidência alguma de que essas coisas existam. Em O Mito de Sísifo Camus busca retificar isso, basicamente encorajando os indivíduos a desistirem de seu desejo por uma ordem razoável e coerente para o mundo. É o anseio humano por razão em um mundo desarrazoado que é responsável pela absurdidade da condição humana, e ele sugere que a busca incessante por razão, destacada no Iluminismo, alienou a humanidade de si mesma. Camus põe mais importância nas funções práticas e estéticas da razão, em vez de na “razão pura” da metafísica, que busca conhecer a realidade última, o que realmente existe e o que torna essa existência possível.

Heidegger argumenta que todos nós temos também alguma compreensão vivida do significado de ser, embora vaga, e é por essa razão que nossa própria existência está em jogo ao perseguirmos essa questão aparentemente opaca.

Desde os gregos essa diferença tem sido encoberta e ignorada, e sugere que isso se deve ao fato de os filósofos terem estado embaraçados pelo tempo, invariavelmente interpretando o ser como atemporal, eterno e imutável.

A investigação filosófica necessita focar no tempo, e no que ele chama “Dasein”, para esclarecer, tanto quanto possível, o significado da questão do ser.

É sua interpretação do Dasein em termos de temporalidade, o que ele chama sua "analítica existencial".

Heidegger sugere que o Dasein é o ente particular, ou entidade, que deve ser investigado a fim de compreendermos o ser. Isso, porque o Dasein é o único ente que pode levantar a questão acerca de seu próprio ser, que está envolvido com seu próprio ser, e, de um modo um pouco sinônimo, para quem sua própria existência está em questão.

O Dasein é um sítio privilegiado de investigação porque ele possui uma compreensão do significado do ser em geral (Heidegger chama essa compreensão de "pré-ontológica"), mesmo que seja, com frequência, reprimida e oculta.

Nas palavras de Heidegger, "a essência do Dasein reside em sua existência". Isto foi claramente uma inspiração para a famosa máxima existencialista de Sartre, segundo a qual para os entes humanos a “existência precede a essência”.

Para qualquer caso particular de responsabilidade e para qualquer decisão particular e assim por diante, podemos dizer que é minha responsabilidade e minha decisão. O Dasein nomeia essa individualidade enquanto é vivida como oposta à objetivamente descrita, e essa ênfase na experiência "vivida" e concreta é conservada em todos os pensadores existenciais.

Estamos essencialmente no mundo e somos inseparáveis dele. Fundamentalmente, não somos abstraídos do mundo, como algumas práticas científicas tendem a assumir – na verdade, o próprio conceito de “metodologia” é possivelmente baseado na pressuposição de uma separação entre o observador e o que é observado –, mas, ao contrário, estamos sempre imersos no dia a dia do mundo da vida.

A intenção metafísica de conhecer e conter o mundo ignorou as praticidades de nossa existência cotidiana onde, de acordo com Heidegger, estamos melhor situados para apreender o ser, porém, de um modo necessariamente limitado.

Contra a concepção cartesiana, o mundo não é, principalmente, o mundo científico, mas o mundo prático da vida diária. Para Heidegger, os objetos que nos cercam são, acima de tudo, utensílios para nosso uso, e a estrutura da existência humana é, por essa razão, melhor desvelada na atividade prática. Heidegger diz que o Dasein está em casa no mundo como um trabalhador em seu local de trabalho, e, ao falar de um martelo nesse contexto, explica que, “quanto menos nós apenas olhamos para a coisa martelo, e quanto mais o seguramos e o usamos, mais primordial se torna nossa relação com ele". Em outras palavras, ser-no-mundo tem a ver com manusear as coisas e se envolver na prática, em vez de abstrair das coisas na cognição teórica.

Para Heidegger, não existe objeto fora do contexto humano e toda teorização simplesmente-dada deve reconhecer que uma condição de sua possibilidade é esse comportamento mais primordial e pragmático dirigido às coisas que ele designa como o à-mão.

O mundo existe desse modo prático para nossa percepção, não em algum domínio reificado de apreensão sensória pura de cores, formas etc., que mais tarde vem a ser mediado pelo pensamento e pela interpretação.

Heidegger insiste que não pode existir sujeito isolado algum que subsequentemente encontre outros. Mais precisamente, para ele, o Dasein está sempre no mundo, um ser-com. Na verdade, ele argumenta que o ser-com é uma condição necessária do Dasein. Sob essa perspectiva, não podemos ser um eu, ou sujeito, sem outros.

Heidegger argumenta que, nas disposições, vislumbramos o que ele chama nosso “estar-lançado”, que no seu entender se refere a estarmos entregues a uma situação, ao que ele chama um “aí”, assim como ao reconhecimento posterior de que esse mesmo “aí” é contingente e que as coisas poderiam ter sido diferentes; poderíamos ter nascido em algum outro lugar, de outros pais e várias circunstâncias amplamente diferentes. O estar-lançado é destinado a comunicar o fato de estarmos entregues à contingência sem razão alguma, e enfatiza a inalterabilidade do passado, do qual não somos os criadores, mas do qual devemos nos apropriar, tornando-o nosso.

Na concepção de Heidegger, disposições ontologicamente importantes como ansiedade e tédio não vêm de fora nem de dentro. Elas surgem de nosso ser-no-mundo, e ele insiste que não podemos fazer disposições particulares acontecerem; nem podemos, igualmente, prescindir delas completamente .

Dasein é lançado em direção ao futuro, e é isso o que torna a liberdade possível. Seu foco nas possibilidades contidas na “compreensão” reforça sua definição fundamental do Dasein como primordialmente aquele que “ainda não” é. A potencialidade, ou a possibilidade de ser, torna-se intimamente associada ao Dasein, muito mais que a realidade ou o que é.
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