Morte e finitude como condição existencial


Perceber que um dia vamos morrer pode nos parecer desesperador, principalmente diante do absurdo da vida, ou seja, vivemos para morrer? Sim, a morte é uma circunstância da vida, todos nascemos sabendo que um dia vamos morrer.

Como o existencialismo se foca na existência concreta e finita, ao invés de uma ser abstrato e eterno, a morte é vista como o fim da existência, de tudo o que fizemos dela e de tudo o que planejamos um dia fazer, inclusive o que deixamos de fazer.

Morrer é colocar um fim em nossa existência, inclusive sobre todas as nossas possibilidades de ser. Em nossa vida, vivemos diversas situações que terminam, trata-se do tema da finitude, ou seja, há coisas que acabam, e nossa exitência é uma delas.

Nos aproximamos da experiência de morte em diversos momentos, quando perdemos um parente próximo, um amigo, um colega, um vizinho. Perecemos a finitude das relações quando uma pessoa querida muda para um lugar distante, ou quando nós mesmos mudamos e deixamos de lado algo que antes nos fazia sentido.

Vivemos numa constante transformação, sempre estamos mudando, e quando nos transformamos, é como se algo em nós morresse também. Nossas velhas experiências vão se enfraquecendo e deixamos elas para trás.

Toda mudança tem implicitamente em renúncia, algo deixamos para trás, para darmos lugar à novas experiências. Porém, com a morte física chega o fim de todos as nossas experiências e de tudo o que poderíamos desenvolver em vida.

Refletir sobre a morte é perceber a finitude das coisas, compreender que nem tudo é eterno, que tem coisas que um dia chegarão ao fim. Enfrentar a perda de uma pessoa querida, é ter de lidar com a perda de todas as suas possibilidades de estar com ela e conviver com ela. Além disso todos o modos de ser dela, seus desejos, sonhos e expectativas, tudo se vai com sua morte.

Não é tão fácil encarar tudo isso, e dependendo da proximidade e das expectativas que desenvolvemos com relação à pessoa pode ser muito doloroso e angustiante. Quando perdemos uma pessoa muito próxima, sentir a perda dela é como se perdêssemos também parte de nós, como se algo em nós também estivesse morrendo naquele momento.

Parece-nos difícil compreender a perda como algo inerente à vida, não queremos sentir essa sensação, não queremos entender que podemos perder tudo o que hoje temos. Se o que temos nos faz sentir completos, perder algo pode nos fazer sentir incompletos ou faltosos.

Porém, não somos seres completos e perder faz parte da vida, somos seres incompletos que perdemos algo para dar lugar a outra coisa. Lidar com a perda é necessário para nos transformar, pois todas as vezes que mudamos deixamos algo de lado, o que já não faz mais parte de nossas buscas e interesses atuais.

Nem sempre um texto descritivo é suficiente para descrever sobre temas tão profundos, por isso deixo dois poemas para refletir mais sobre o tema, um de Elizabeth Bishop, intitulado “A arte de perder” e outro de Marla de Queiroz, "Pessoas vão embora"...

A arte de perder não é nenhum mistério.
Tantas coisas contêm em si
o acidente de perdê-las,
que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida,
a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita.
Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero lembrar
a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas
e um império que era meu,
dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você
(a voz, o riso etéreo que eu amo)
não muda nada.

Pois é evidente que a arte de perder
não chega a ser mistério
por muito que pareça
muito sério.

(Elizabeth Bishop)

Pessoas vão embora de todas as formas: vão embora da nossa vida, do nosso coração, do nosso abraço, da nossa amizade, da nossa admiração, do nosso país. E, muitas a quem dedicamos um profundo amor, morrem. E continuam imortais dentro da gente.

A vida segue: doendo, rasgando, enchendo de saudade. Depois nos dá aceitação, ameniza a falta trazendo apenas a lembrança que não machuca mais: uma frase engraçada, uma filosofia de vida, um jeito tão característico, aquela peculiaridade da pessoa.

Mas pessoas vão embora. As coisas acabam. Relações se esvaem, paixonites escorrem pelo ralo, adeuses começam a fazer sentido. E se a gente sente com estas idas e também vindas, é porque estamos vivos. Cuidemos deste agora. Muitos já se foram para nos ensinar que a vida é só um bocado de momento que pode durar cem anos ou cinco minutos.

(Marla de Queiroz)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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