Gabriel Marcel e o existencialismo


Gabriel-Honoré Marcel (1889-1973) foi filósofo e dramaturgo francês que influenciou as tendências existencialistas e fenomenológicas. Sua filosofia é contrária ao racionalismo que prioriza a razão sobre todas as experiências e rejeita o cientificismo que toma o homem como objeto.

O termo “existencialismo” foi utilizado por Gabriel Marcel por volta de 1940 para descrever as filosofias de Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beavoir, que tinham como foco a existência humana, ao invés da abstração metafísica.

Para Marcel, a existência tem uma urgência de transcendência. Sua obra filosófica trata sobre introspecção e autoreflexão, utilizado como fonte de sua reflexão suas experiências interiores.

Sua filosofia defende a singularidade irrepetível de cada ser existente, de modo contrário ao racionalismo que reduz a existência à dados e explicações. Marcel reconhece a falta de objetividade como algo fundamental em cada pessoa, entende que a existência corresponde ao corpo. Cada pessoa é seu corpo, que segue para a concretização do eu, tornando-se uma existência singular. Para ele, o homem busca um sentido para a vida, que é sempre único e pessoal. Os que recusam encontrar um sentido acabam por renunciar sua identidade própria e se dissolvem no ter, ao invés de ser.

O sentido existencial do indivíduo, em sua vida corporal e psíquica, é tratado por Marcel referindo-se a experiência imediata e irredutível da existência de um ser existente.

Segundo Marcel, o ser humano é itinerante, sempre a caminho de um sentido para a vida. A esperança representa a abertura deste ser a contestar tudo o que existe. Sua filosofia está em defesa do homem e de sua dignidade. Ele não rejeita a razão, mas rejeita o abuso do racionalismo. A filosofia é tida como uma expressão da experiência, na ordem do vivido e experimentado.

“A esperança é o estofo de que nossa alma é feita; é um outro nome da exigência de transcendência, pois é a mola secreta do homem itinerante.”
(Gabriel Marcel)

Para Marcel, o existente não pode se separar de seu corpo, mas só pode existir e pensar como ser encarnado. Não apenas temos um corpo, mas somos nosso corpo, assim como somos nossa história, nossa situação em participação. O reconhecimento de si acontece a partir de seu próprio corpo concreto, e não somente por meio de pensamentos ou abstrações.

Marcel tratou sobre uma distinção fundamental sobre a existência de cada pessoa, chamou de tensão entre o Ser e o Ter. Ter corresponde à coisas que estão externas ao indivíduo e que não dependem dele, onde a pessoa se coloca como proprietária delas. Os que se apegam ao Ter acabam deixando de lado o Ser, os objetos que possuem os absorvem. Já o Ser é aquele que tem primazia sobre o Ter, que define suas relações com o Ter.  Segundo ele, vivemos numa tensão dialética entre o Ser e o Ter, porém devemos sempre tentar orientar o Ser, para que não seja absorvido pelo Ter.

Cada pessoa tem a possibilidade de escolher por si mesmo o que deseja para si. Se uma pessoa escolhe fazer uma escolha em outro momento pode mudar sua escolha, porém a escolha foi feita por ela mesma, sua fidelidade implica numa postura que está além de sua vida e as situações. Trata-se de uma escolha fiel a si mesmo.

“Se cumpro minha promessa, torno-me inautêntico para com o outro. Por outro lado, se se negasse todo o engajamento, todo o compromisso, tornar-se-ia impossível a vida em comunidade.”
(Gabriel Marcel)

O Ser verdadeiro é o ser disponível, que se abre para participar do mundo e para estar com os outros. Trata-se de uma postura esperançosa e amorosa para com a vida e as experiências. Quando a pessoa se ocupa unicamente de si mesma, ela fica fechada para os outros, tornando-se inquieta e insegura. Marcel relaciona essa postura com a desesperança, que faz com que a pessoa fique com medo, se feche em si mesma e não espera nada mais de ninguém. Segundo ele, o ser indisponível é a raiz do pessimismo. 

A fé é um ato de dar sentido à própria existência, de modo mais significativo e transcendente. Gabriel Marcel faz parte de um grupo de renovadores do pensamento sobre o cristianismo. Podemos citar entre eles Santo Agostinho, Blaise Pascal e Sören Kierkegaard. Sua obra possui uma originalidade por analisar a existência como uma expressão do testemunho, da fidelidade, do amor e da esperança, vinculando a existência ao Ser e partindo da realidade concreta do homem em relação a comunhão íntima e pessoal com a transcendência.

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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