O ser ideal e o ser existente


Na história da filosofia há duas grandes tendências para a compreensão do ser humano. Uma delas entende o ser como ideal, com características próprias e atemporais, e a outra como um ser concreto e existente, que se constitui e se transforma concretamente.

As filosofias idealistas tendem para o essencialismo, acreditam que o ser humano possui determinadas características essenciais que são imutáveis, eternas e atemporais. Já as filosofias materialistas tendem para o existencialismo, pois compreendem que cada ser humano se constrói em sua vida concreta no mundo, se altera e se diferencia de acordo com o tempo e o espaço.

existencialismo é uma vertente filosófica que analisa o ser humano em seus aspectos concreto, afetivo e singular. Portanto entende que ele desenvolve suas características e se transforma na relação com os outros, de acordo com um certo período histórico e um espaço geográfico, diferentemente de outro ser humano de outro período e local.

Na Grécia Antiga, por volta do século VI a.C., o filósofo Heráclito, que vivia em Éfeso, acreditava que nossa existência e todas as coisas do mundo estavam em permanente fluxo e transformação. Segundo ele não havia como nos banhar no mesmo rio, pois quando voltamos as águas não são as mesmas e nós também já não somos os mesmos.

"Nada existe de permanente a não ser a mudança."
(Heráclito de Éfeso)

Contrário à este pensamento, também na Grécia Antiga, por volta do século V a.C., o filósofo Parmênides de Eléia acreditava que o ser é eterno, uniforme e atemporal, portanto não havia como se transformar. Segundo ele, o que muda no ser são apenas questões aparentes, pois o ser e as coisas são compostas de essências que não se alteram. Ele passa a valorizar as "essências" em oposição às "aparências".

Seu pensamento influenciou a filosofia de Platão (século V a.C.), que se tornou uma das grandes bases do pensamento ocidental. Segundo Platão, a realidade das coisas corresponde às suas essências, e estas não podem ser captadas no mundo sensível que percebemos, mas num mundo ideal que não podemos ver, que podemos alcançar apenas por meio da razão.

Para Platão, tudo o que vemos no mundo são representações imperfeitas das essências das coisas. Esse modo de entender o ser humano supõe uma concepção de ideal, que corresponde à "essência" do ser, que privilegia e valoriza um ser ideal e essencial, em oposição ao ser mundano e concreto, que vive e se transforma com a vida.

Inclusive o cristianismo também adota e difunde este pensamento idealista, relacionando a vida terrena como uma condição ilusória e desimportante, pois o importante é o "reino dos céus", acessível apenas após a morte. Na Idade Moderna, o filósofo René Descartes (século XVII), representante do racionalismo, mantém o primado da razão sobre a emoção, desconfia e desconsidera os sentidos e as emoções humanas por não serem "seguras" para o conhecimento científico, entendendo o ser humano como uma mera máquina pensante.

É somente no século XIX, com o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard e o alemão Friedrich Nietzsche, que se retoma a compreensão sobre o ser humano como um ser que se modifica no tempo, que possui singularidades, que se diferencia dos outros, que não é o resultado de uma essência universalmente definida e que não possui um modelo posto de como deve ser, mas que se constrói e se transforma por meio de sua experiência concreta e sensível no mundo.

São estes pensamentos que formam as bases para a filosofia existencialista. Portanto, essa compreensão do ser humano como um ser que se forma e se transforma em um certo espaço geográfico e de acordo com um certo tempo, e que não possui uma essência previamente definida, é ainda um tanto recente, por isso também ainda é mal compreendida, pois contradiz um pensamento tradicional.

A análise existencial parte de uma leitura do ser humano enquanto ser existencial, concreto e mundano, que experimenta a vida e se transforma de acordo com o tempo e o espaço, que por ela é afetado e nela exerce afetos. E não enquanto a ideia de um ser essencial, que não se modifica no tempo e espaço, como acreditavam as filosofias idealistas e metafísicas.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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