Górgias de Leontinos, o niilista


Górgias (485-380 a.C.) foi um filósofo grego sofista e retórico nascido em Leontinos, uma colônia grega na Sicília. Fez parte da primeira geração dos sofistas, juntamente com Protágoras de Abdera, e ficou conhecido como "o niilista", por pensar que não há um fundamento absoluto para a verdade.

Ele mudou de cidade diversas vezes, oferecendo apresentações e aulas sobre retórica nos grandes centros das cidades que passava. A retórica é técnica de falar bem, usando a linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva.

Foi responsável por transmitir a retórica para a Ática, próxima do Mar Egeu, contribuindo com a difusão do dialeto ático. Quando estava próximo dos 60 anos, ele se mudou para Atenas, se fixando por lá, provavelmente devido à sua popularidade e dos benefícios financeiros que recebeu por suas apresentações e aulas.

O filósofo foi responsável por inovações retóricas envolvendo a estrutura e a ornamentação, além da introdução da paradoxologia - o pensamento paradoxal e a expressão paradoxal - o que fez com que fosse apelidado de "o pai da sofística".

Algumas de suas obras sobre retórica, como "Encômio de Helena", "Defesa de Palamedes", "Sobre a Não-Existência" e "Epitáfio", foram preservadas numa obra chamada "Technai", um manual de instrução retórica. Esses textos são grandes contribuições para a teoria da retórica.

Górgias não acreditava na existência de uma ciência real, para ele é impossível saber o que existe verdadeiramente e o que não existe. Segundo ele, nada existe, pois nem o ser e nem o não-ser são dados da experiência.

Os escritos de Górgias são um tanto retóricos e performáticos, cada uma de suas obras defende pontos de vista que não eram muito populares em sua época, tidos como paradoxais e até mesmo absurdos. Ele argumentava que palavras persuasivas tinham uma força equivalente às palavras dos deuses e o mesmo impacto da força física.

"Assim como diferentes drogas trazem à tona os diferentes humores do corpo - alguns interrompendo uma doença, outros a vida - o mesmo ocorre com as palavras: algumas causam dor, outras alegria, algumas provocam o medo, algumas instilam em seus ouvintes a ousadia, outras tornam a alma muda e enfeitiçada com crenças más."
(Górgias)

Ele também acreditava que seus "encantamentos mágicos" trariam cura à psiquê humana ao controlar as emoções fortes. Dedicava uma atenção especial aos sons das palavras, que, como na poesia, podiam cativar as plateias. Seu estilo florido e rimado parecia hipnotizar aqueles que o ouviam.

Górgias não professava ensinar a "virtude", como pretendia Sócrates, pois não acreditava que havia uma forma absoluta de "virtude", mas que o conceito era relativo a cada situação. Sua crença era a de que a retórica é a rainha de todas as ciências, na medida em que é capaz de persuadir qualquer curso de ação. Embora a retórica fizesse parte dos discursos dos sofistas, Górgias atribuia maior importância.

Uma de suas obras perdidas tinha o título: "Da Natureza Sobre o Não-Ser", uma teoria sobre o ser que refutava a tese de Parmênides que "o Ser é", oferecendo uma conclusão oposta. O texto original foi perdido e hoje restam apenas as paráfrases:
  1. Nada é;
  2. Mesmo que algo fosse, não poderia ser conhecido.
  3. Mesmo que fosse e que pudesse ser conhecido, não poderia ser comunicado.
Nesta concepção fica claro que Górgias compreende que um verdadeira objetividade é impossível, pois a mente humana nunca poderia ser separada de seu possuidor. Esta teoria ainda é discutida por filósofos de todo o mundo, e este argumento tem levado alguns a considerar Górgias um niilista, aquele que acredita que nada é, ou que o mundo é incompreensível, e que o conceito de verdade é fictício.

"Como alguém pode se comunicar a ideia de cor por meio de palavras, pois o ouvido não ouve cores, mas somente sons?"
(Górgias)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial. 
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