Kierkegaard e o existencialismo


Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo, teólogo, poeta e crítico social dinamarquês, considerado precursor do existencialismo, pois priorizou a realidade humana concreta ao invés do pensamento abstrato, dando importância à escolha e ao compromisso pessoal.

Escreveu textos críticos sobre religião, cristandade, moralidade, ética, psicologia e filosofia da religião, utilizando da metáfora, ironia e de parábolas. Kierkegaard introduziu o termo "existência" no sentido que é usado na filosofia contemporânea, se colocando contrário aos filósofos idealistas de seu tempo.

Kierkegaard nasceu numa família rica de Copenhagen. Sua mãe era modesta, serena, simples e não teve educação formal. Seu pai era um homem melancólico, ansioso, altamente devoto e muito inteligente. Kierkegaard foi estudar teologia em 1830, porém neste período derivou sua atenção mais para a filosofia e para a literatura, tendo estudado também latim e história.

Em sua filosofia, Kierkegaard se foca na existência concreta do indivíduo, na subjetividade e na experiência pessoal, ao invés de se ocupar do “conceito de ser”, de concepções idealistas, metafísicas ou especulativas. Segundo ele, a existência humana não pode ser explicada por meio de conceitos ou esquemas abstratos, o sistema promete muito mas não dá conta da realidade humana, por ser muito complexa e peculiar. Em suas obras, Kierkegaard explorou as distintas emoções e sentimentos dos indivíduos diante de difíceis escolhas na vida.

Kierkegaard era descrente da possibilidade de algum sistema abstrato resolver e dar conta das diferenças entre os indivíduos. Segundo ele, a existência humana não pode ser explicada por meio de conceitos abstratos, mas apenas por meio da realidade singular e concreta de cada indivíduo. A ideia de universal, que é igual para todos, segundo Kierkegaard, não passa de uma abstração do singular, e singular é o ser, a pessoa. As generalizações tratam apenas de hipóteses genéricas, mas nada dizem sobre uma pessoa específica.

Tudo que o sujeito escolhe, ele faz partindo de si, não existe escolha que não seja subjetiva, pois é o sujeito o referencial de suas escolhas. O que cada um escolhe sempre diz respeito a si mesmo, realizando como existente. Escolher é exercer a própria subjetividade, de modo que toda escolha externa é fruto da escolha interna. Porém, há um limite para as escolhas que o indivíduo pode fazer, não somos capazes, de mudar o seu passado, não há como alterar o que já viveu e as experiências que passou. Existir é escolher

“O homem é uma síntese de infinito e finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade.” (Kierkegaard)

Somente o indivíduo pode se aproximar de sua realidade, que é subjetiva. Para Kierkegaard, a subjetividade é a verdade, ou seja, as crenças subjetivas de uma pessoa constituem o que é a verdade para ela, por isso cada um deve buscar a sua própria verdade, o que seja verdade para si. Seu foco está muito mais para a subjetividade, para as emoções e sentimentos, do que para o pensamento ou para a razão. Segundo ele, a existência está aí para ser vivida, dispensando explicações racionais.

“A subjetividade é a verdade, a subjetividade é a realidade.”
(Kierkegaard)

O ser não é predeterminado Segundo Kierkegaard, não existe nenhuma predeterminação para o ser humano, sobre como cada um deve ser ou levar sua vida. Essa indeterminação o leva a angústia. Quando temos uma determinação sabemos que estamos no mundo para um fim, e que temos um caminho a ser seguido, a vida nos parece coerente e lógica. Porém, por não sermos predeterminados, a existência é livre em meio a possibilidades, então temos a possibilidade de ser. Essa indeterminação nos gera angústia, pois escolher é sempre um risco, uma experiência sem garantias.

"A coisa crucial é encontrar uma verdade que seja verdade para mim, encontrar a ideia pela qual eu esteja disposto a viver e morrer." (Kierkegaard)

Em oposição à Filosofia de Hegel, que buscava uma universalização por meio da abstração racional, Kierkegaard acreditava ser impossível incluir a subjetividade do indivíduo num sistema racional. O absurdo é a distância da subjetividade em relação à razão, devido a impossibilidade de se estabelecer um sistema racional de vida no mundo. Na filosofia existencialista, o absurdo corresponde à impossibilidade de se justificar racionalmente a existência das coisas e dos seres.

Quando percebemos que não há uma determinação para a vida e somos nós que a fazemos, nos sentimos angustiados e perdidos, gerando questões como o que fazer com o fato de não ter uma regra ou um caminho a seguir? A existência acontece no devir, estamos sempre nos tornando e nos transformando. O ser é aquele que escolhe, que se torna. O caminho para lidar com as angústias existenciais é o autoconhecimento, o aprofundamento sobre a sua própria existência e o reconhecimento de suas singularidades.

Para Kierkegaard, não existem razões lógicas que determinem como cada um deva conduzir a sua vida, porém a vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada. A questão não é tentar resolver racionalmente o problema do viver, tentar explicar os “porquês” da vida, pois isso fica apenas em nível racional e não na experiência. A vida está aí para ser vivida e sentida, não somente explicada racionalmente.

“Sinto, logo sou.”
(Kierkegaard)

O desespero surge da alienação do eu, do desligamento da pessoa com sua própria existência. Para lidar com o desespero, Kierkegaard propõe irmos de encontro com o que verdadeiramente somos, ao invés de tentar nos tornar outra coisa. Segundo Kierkegaard, o desespero mais comum é não escolher nossa vida, ou não podermos ser nós mesmos. Porém, a forma mais profunda de desespero, é escolhermos ser outra pessoa, ao invés de sermos nós mesmos.

“Ser quem se é, realmente, é o contrário do desespero.”
(Kierkegaard)

Ser como realmente somos nos proporciona uma paz e uma harmonia interna com a nossa existência. A autoanálise é uma ferramenta para compreender o desespero, para se aproximar de si mesmo. Ser quem se é, para Kierkegaard, é o contrário do desespero. O desespero desaparece quando paramos de negar a pessoa que realmente somos, e nos permitimos ser como somos e como queremos ser.

“Aventurar-se no sentido mais elevado é, precisamente, tomar consciência de si próprio.” (Kierkegaard)

Por dedicar-se a refletir sobre os sentimentos humanos, tentando compreende-los de maneira concreta e singular, ao invés de metafísica e ideal, Kierkegaard é tido como o primeiro dos filósofos existencialistas, apesar de não utilizar este termo em sua época. Grande parte de suas obras são dedicadas às questões existenciais, como a liberdade, a angústia, o desespero, a subjetividade e a indeterminação do ser humano. Além disso, também priorizou refletir sobre a existência humana concreta ao invés de buscar explicações abstratas.

“Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se.”
(Kierkegaard)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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