Livro: Fenomenologia - Cerbone

O livro "Fenomenologia", de David R. Cerbone, apresenta uma boa introdução sobre a fenomenologia e seus principais expoentes. Fenomenologia é o estudo dos fenômenos, no sentido de prestar atenção ao modo como acontecem na experiência.


Segue abaixo alguns fragmentos do livro:

A fenomenologia tem uma história relativamente bem-definida, que começa no início do século XX (com alguns indícios no século XIX),

A palavra “fenomenologia” significa “o estudo dos fenômenos”, onde a noção de um fenômeno e a noção de experiência, de um modo geral, coincidem. Portanto, prestar atenção à experiência em vez de àquilo que é experienciado é prestar atenção aos fenômenos.

A tradição fenomenológica concebeu a intencionalidade como sendo o traço definidor, e mesmo exclusivo, da experiência, e, portanto, a fenomenologia pode ser caracterizada como o estudo da intencionalidade.

A fenomenologia começa com Husserl, mas de modo algum termina com ele. Embora seus praticantes subsequentes fossem coletivamente inspirados por Husserl, e estivessem em débito para com ele, muitos se ramificaram em diferentes direções, às vezes sob formas que complementam sua visão original, às vezes, sob formas que mais propriamente equivalem a rejeição e repúdio.

A fenomenologia está precisamente ocupada com os modos pelos quais as coisas aparecem ou se manifestam para nós, com a forma e estrutura da manifestação.

Sua oposição ao que é talvez a tendência mais dominante na filosofia contemporânea (que também foi um grande expoente na época de Husserl), a saber, o “naturalismo”. Essa visão, que dá lugar de destaque às descobertas das ciências naturais, tende a se preocupar precisamente com os tipos de estruturas causais que a fenomenologia desconsidera.

Quando você vê, você vê o livro, por exemplo, não ondas de luz atingindo sua retina; quando você ouve, você ouve a música sendo tocada, não moléculas bombardeando seus tímpanos.

Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty – são, sem dúvida, as figuras mais famosas no movimento fenomenológico. Há muitas outras figuras significantes na tradição fenomenológica, tais como Max Scheler, Eugen Fink, Alfred Schutz, Edith Stein e Paul Ricoeur,

A oposição de Husserl ao naturalismo equivale à afirmação de que existem verdades e princípios que as ciências naturais pressupõem, mas que elas próprias não podem explicar; nem toda verdade é uma verdade científica natural.

De acordo com Husserl, as ciências naturais, e, de um modo geral, a atitude natural, são “ingênuas”. A acusação de ingenuidade indica somente uma limitação, não um erro, da parte da atitude natural e das ciências naturais; a acusação indica que existem questões que estão, em princípio, para além de seu alcance.

As ciências naturais (e, de um modo geral, a atitude natural) não podem explicar como a consciência procede ao “contatar” objetos, uma vez que qualquer explicação possível oferecida por elas será expressa em termos de objetos, e isso, da perspectiva de Husserl, não é, de modo algum, explicação.

Uma coisa que é verdadeira sobre objetos físicos (ou ao menos aqueles que são grandes o bastante para vermos) é que eles podem ser vistos por mais de um lado. Se eu seguro uma pedra diante de mim, eu posso girá-la de vários modos, e, assim, a pedra apresenta diferentes lados para o conforto de minha visão. Além disso, não existe modo algum de virar a pedra que me permita vê-la em sua totalidade em qualquer tempo dado, e, na verdade, não está claro o que uma experiência perceptual completa da pedra possa envolver; sempre existem mais ângulos a partir dos quais olhar para a pedra, mais distâncias da pedra às quais eu posso estar, mais variações nas condições de luminosidade, e assim por diante. Implícita na experiência perceptual de objetos físicos está a noção de infinitude ou, talvez, de possibilidade ilimitada.

Por exemplo, se eu vejo uma pedra cinza esbranquiçada sob uma luz vermelha, ela parecerá mais rosa do que realmente é. O ponto dessas considerações é que, no caso dos objetos físicos, uma distinção entre é e parece está prontamente disponível e é geralmente aplicável.

Husserl argumenta que, quando se trata da consciência, essas características essenciais dos objetos físicos podem não estar presentes (cf. PCP: 103-107). Se mudarmos da pedra que estou percebendo para meu perceber dela, torna-se aparente que não podemos transferir muitas das coisas que notamos sobre a pedra para minha experiência dela. Comecemos com a noção de perspectiva. Embora a pedra se apresente de um lado ou de outro, esse não é o caso com minha percepção dela. A pedra, podemos dizer, aparece em minha experiência dela, mas minha experiência não é apresentada para mim em uma outra aparição. Minha experiência é apenas a apresentação de coisas tais como a pedra, e nada mais. Diferente da pedra, minha experiência não está disponível numa variedade de perspectivas. Não posso “girar” minha experiência do mesmo modo que eu posso girar a pedra, vendo agora de um lado, agora, de outro. Na verdade, minha experiência, diferente da pedra, não tem “lados” em absoluto. Diferente da pedra, que admite infinitas apresentações ou aparições, a aparição é esgotada pelo seu aparecer. Se é assim, então os fenômenos sobre os quais a consciência consiste não admitem a distinção é/parece. Não há para a aparição senão seu aparecer do modo que é; não existe uma maneira pela qual ela possa estar realmente em contraste com o modo pelo qual aparece. Embora a pedra possa parecer pouco nítida, mas de fato ter bordas lisas e distintas, esse não é o caso com minha experiência pouco nítida da pedra (quando recoloco meus óculos, eu tenho uma nova experiência, e não uma nova perspectiva de uma experiência antiga).

Para usar a terminologia de Husserl, qualquer experiência perceptual de coisas como a pedra será sempre “inadequada”, o que significa que haverá sempre “lados” que podem ser sugeridos pela experiência, mas que não são parte da experiência no sentido de serem apresentados nessa experiência.

É sempre concebível que a experiência futura contrarie minha experiência atual e passada: o que eu considero ser uma pedra pode resultar ser um objeto de cenário em isopor ou, pior, uma ficção de minha imaginação. Para usar mais terminologia husserliana, minha experiência da pedra não é “apodítica”: ela não admite certeza completa.

As ciências naturais procedem pela coleta de dados, propondo hipóteses que explicam os dados, concebendo testes para as hipóteses propostas, e assim por diante. Desse modo, as ciências naturais trabalham indo para além do que é dado na experiência, sempre procurando por leis e princípios que possuam uma relação explanatória com os objetos e processos que são observados. A fenomenologia, em contraste, foca precisamente no que é dado na experiência, abstendo-se inteiramente do método de formular hipóteses e extrair inferências do que é dado para o que se encontra aquém ou além disso.

Questões concernentes às fontes e sucessos da experiência são inteiramente irrelevantes para o tipo de investigação que Husserl quer conduzir. Consequentemente, sua investigação começa excluindo essas questões: “parentesando-as” ou, como Husserl por vezes diz, colocando-as “entre parênteses”. Começar com esse ato de exclusão (ou epochē, que é a palavra grega para “abstenção”) é executar o que Husserl chama a “redução fenomenológico-transcendental”: “transcendental” porque ela torna disponível a possibilidade de perguntar e responder questões do tipo “como é possível” com respeito à intencionalidade da experiência; “fenomenológica” porque a execução da redução dirige a atenção do investigador para os fenômenos conscientes, tornando possível, por meio disso, o discernimento e a descrição de sua estrutura essencial.

Quando executo a redução, não atento mais aos objetos mundanos de minha experiência, nem me pergunto sobre os fundamentos causais dessa experiência; em vez disso, foco minha atenção na experiência desses objetos mundanos. Presto atenção à apresentação do mundo ao meu redor (e de mim mesmo), em vez do que é apresentado. A redução é, assim, um tipo de reflexão: para Husserl, o domínio da reflexão é “o campo fundamental da fenomenologia” (Ideas I: § 50).

Para um trecho da experiência auditiva de alguém ser de ou sobre a Quinta Sinfonia de Beethoven, vários elementos estruturais complexos são pressupostos. Não é apenas uma questão de ouvir uma nota, e depois outra nota e assim por diante. Deve haver, em acréscimo, uma rede de relações retencionais e protensionais mantendo os elementos da experiência juntos. Na verdade, essas relações constituem esses momentos como esses momentos particulares; a experiência de ouvir, por exemplo, a segunda nota isolada é muito diferente de ouvi-la dentro da melodia maior. No último caso, a experiência das outras notas é parte da experiência dessa nota enquanto soando nesse momento, embora isso não seja assim no caso em que a única nota é tocada com nada ao redor dela.

Quando a última nota soa, não dizemos apenas que ouvimos algumas notas, mas que ouvimos uma melodia particular, tal como a abertura familiar da Quinta Sinfonia de Beethoven: a melodia guia ou governa a experiência das notas particulares. Enquanto experienciamos cada nota passando, retendo-as enquanto prosseguimos e esperando outras notas, os momentos da experiência são reunidos, seus respectivos horizontes se fundem através do que Husserl chama “síntese”. Através da síntese, os vários momentos da experiência são unidos como sendo de ou sobre, nesse caso, uma melodia.

Assim como a melodia não é ouvida “de uma só vez”, mas, em vez disso, nota por nota, de um modo que “equivale” a uma melodia, nenhum objeto material é visto de uma só vez. Quando estendo a pedra diante de mim, vejo somente um lado dela. À medida que a giro lentamente, enquanto mantenho meu olhar fixo, novos lados aparecem e os lados vistos anteriormente desaparecem.


Fonte:
Cerbone, David R. Fenomenologia. 3a ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
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