Nietzsche: uma breve biografia


Nietzsche não é um autor de fácil compreensão, sua obra é em grande parte fragmentária, escrita por meio de aforismos, metáforas e ironia, possibilitando múltiplas interpretações.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) foi filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor, nascido no Reino da Prússia, atual Alemanha. Ele criticou a religião, a moral e a tradição filosófica do ocidente. Sua filosofia trata sobre a afirmação da vida, questionando todas doutrinas que diminuem nossas potências, em favor da ampliação de nossas possibilidades de ser.

Os diversos termos que ele aborda, como o “além-do-homem”, “moral do rebanho”, “apolíneo e dionisíaco”, são incluídos em muitos de seus livros, e não apenas num deles. Para compreender sua filosofia é preciso uma leitura atenta, profunda e atenta, costurando conceitos de acordo com suas descrições.

Muitos de seus livros são escritos sob a forma de aforismos. Aforismo é um gênero textual que condensa com precisão complexos conceitos filosóficos. Um aforismo se caracteriza por sua brevidade e concisão, contendo máximas que traduzem amplos conceitos por meio de pequenas sentenças.

“Um aforismo honestamente modelado e cunhado não pode “decifrar-se” à primeira leitura. Ao contrário, começa-se unicamente agora a interpretar-se para o qual é necessário uma arte de interpretação. (...) Na verdade, para elevar assim a leitura à dignidade de “arte” é mister, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida, uma faculdade que exige qualidades de vaca, e absolutamente não as de um homem “moderno”: a de ruminar…”
(Nietzsche, Prefácio de 'Genealogia da Moral', 1887)

Por sua postura aforismática, sua obra possibilita uma multiplicidade de interpretações, de modo que não há como definir qual a "mais correta" ou "mais adequada" interpretação. Ele mesmo se colocava a favor da multiplicidade, quando declara que "Não há fatos, apenas interpretações".

Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 no vilarejo de Röcken, no reino da Prússia, próximo a Leipzig, na Alemanha. Seu pai era culto e delicado, seus dois avós eram pastores protestantes. Com 5 anos seu pai e seu irmão faleceram, ele passou a ser educado por sua mãe. Sua família se mudou para Naumburg, com sua mãe, tias e avó. Sua mãe tinha sólidas qualidades morais e um devotamento exemplar.

Durante a infância ele foi um aluno modelo, dócil e leal, chamado na escola de “pequeno pastor”. Com 14 anos ganhou uma bolsa de estudos na escola Pforta em Naumburg. A partir de suas leituras ele começou a se afastar do cristianismo, se interessando pelo estudo da antiguidade clássica grega e latina. Passou a se dedicar ao estudo em grego, estudos bíblicos, alemão e latim. Nesta época seus autores favoritos eram Platão (427 - 347 a.C.) e Ésquilo (525 - 455 a.C.).

Terminado o curso em Pforta, partiu para Bonn para estudar Teologia, porém logo abandonou e foi estudar Filologia, em Leipzig. Com 24 anos foi nomeado professor de filologia na universidade de Basileia, na Suíça, onde permaneceu por dez anos. Filologia é o estudo da linguagem no sentido da origem das línguas antigas, incluindo literatura, história, linguística, formas literárias e instituições do pensamento.

Começa a se interessar por filosofia depois de ler Arthur Schopenhauer, o livro “O mundo como vontade e representação”, se interessando pelo ateísmo e sua valoração da experiência estética. Sua filosofia propõe uma nova maneira de filosofar e compreender o mundo, reconhecendo a mudança, o devir, a multiplicidade, o contraste e a contradição constante no ser e no mundo.

“Nietzsche empreende uma crítica radical das tendências culturais dominantes em seu tempo, caracterizados por uma confiança ingênua nas ideias de evolução e progresso lógico ou natural, no curso dos quais a humanidade teria alcançado o estágio de desenvolvimento em que estaria em condições de, humanizando a natureza e racionalizando a sociedade, aproximar-se do ideal de felicidade universal.”
(Oswaldo Giacoia Jr.. Nietzsche. Publifolha, 2000)

Aos 27 anos, Nietzsche publicou “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música”, seu primeiro livro, que trata sobre as relações entre a música e a tragédia grega, considerado o primeiro gênero teatral, tendo sido muito encenado durante a Grécia Antiga. As tragédias apresentavam histórias trágicas e dramáticas, derivadas das paixões humanas, envolvendo deuses, semideuses e heróis mitológicos.

Todas as tragédias possuíam uma tensão permanente e um final infeliz e trágico, esse gênero transmitia nas pessoas as sensações vividas pelas personagens, num processo tal como uma "catarse", onde o público se envolvia na peça como uma forma de purificação ou purgação dos sentimentos, descarregando os sentimentos e emoções provocados.

“Nietzsche argumenta que a tragédia combina dois tipos de estética que são usualmente mantidos em separado nas outras artes: o apolíneo e o dionisíaco. Apolo é o deus da beleza; Nietzsche o associava ao sonho, harmonia, forma e artes plásticas (como a escultura). Dionísio é o deus do vinho; Nietzsche o associava à intoxicação, desarmonia, ausência de forma, sublimidade e música. Nietzsche considera a combinação de ambas as estéticas na tragédia como a forma ideal de arte, uma forma que mais bem nos permite lidar com a vida e afirmá-la.”
(Ashley Woodward. Nietzscheanismo. Vozes, 2016)

Segundo Nietzsche, Sócrates foi o responsável por defender o mundo abstrato do pensamento. Para ele, a tragédia grega vivia o equilíbrio entre Apolo e Dioníso, porém foi invadida pelo racionalismo sob influência “decadente” de Sócrates.

Apolo é o deus da  clareza, da ordem e da harmonia, enquanto que Dioniso é o deus da exuberância, da desordem e da música. Para Nietzsche, o logos socrático aniquilou a força criadora da filosofia, presente nos pré-socráticos, na Grécia Antiga.

“O surgimento da escola socrática, com extrema valorização do pensamento lógico e da dialética, representaria não um progresso em relação a Grécia pré-socrática, porém o contrário disso. Sócrates e seus contemporâneos já não estaria mais à altura da experiência trágica sobre o mundo, não conseguindo suportar o racionalmente incompreensível - o absurdo da existência.”
(Oswaldo Giacoia Jr.. Nietzsche. Publifolha, 2000)

A supervalorização da razão acaba deixando de lado a intuição e as emoções, o que vai gerar, segundo Nietzsche, consequências terríveis para o desenvolvimento da filosofia no ocidente. Por isso sua filosofia se inicia propondo o resgate desses valores da Grécia Antiga, pré-socrática e reconhece a mitologia não como uma narrativa falsa, mas como uma apreensão intuitiva sobre o mundo.

Em 1889, Nietzsche sofre um colapso e uma doença que afeta fortemente suas capacidades mentais, então com 44 anos. Há uma suposição de que tenha contraído uma paresia geral atípica por conta de uma sífilis. Ele viveu seus últimos anos sob os cuidados de sua mãe e irmã, até falecer em 1900.

Suas críticas à moralidade e suas concepções de superação individual tiveram um impacto profundo sobre pensadores do final do século XIX e início do século XX. Seu questionamento sobre os valores e a objetividade da "verdade" influenciaram a filosofia continental: o existencialismo, as filosofias pós-modernas e o pós-estruturalismo.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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