O Conceito de Angústia - Kierkegaard

No livro 'O Conceito de Angústia', Sören Kierkegaard, comenta sobre a angústia fazendo uma relação com a escolha de Adão em comer da árvore do conhecimento proibida por Deus, e pecando por conta disso. Segundo ele, neste momento não haviam os conceitos de bem e de mal, portanto Adão não sabia se comer o fruto seria algo "mal".

Para Kierkegaard, a angústia é como um medo fora de foco, ou disperso, ela surge do fato da proibição de Deus, porém Adão é livre para obedecer ou desobedecer sua orientação, e foi a angústia que levou Adão a escolher.

A angústia é um sentimento que nos impulsiona diretamente a uma ação, que nos exige consultar a nós mesmos e decidir por conta própria o que vamos fazer.

Segue abaixo alguns fragmentos do livro:

A decisão está acima de meu entendimento, quer ela aconteça por sorteio ou por votação com bolas brancas e pretas, quer a dignidade faça rodízio e o indivíduo ocupe o cargo como autoridade da mesma forma que um representante dos cidadãos periodicamente faz parte de uma comissão de arbitragem.

Que o pensamento tem em geral alguma realidade era a pressuposição de toda a filosofia antiga e da Idade Média.

Qualquer movimento, se por um instante se quiser usar essa expressão , é um movimento imanente, o que num sentido mais profundo não é nenhum movimento – do que é possível convencer-se facilmente quando se considera que o próprio conceito de movimento é uma transcendência, que não pode encontrar lugar na Lógica. O negativo é, aí, a imanência do movimento, é o evanescente, é o superado.

O presente escrito estabeleceu como sua tarefa tratar o conceito “angústia” de um ponto de vista psicológico.

Sempre que se fala do pecado como, por exemplo, de uma doença, de uma anomalia, de um veneno, de uma falta de harmonia, estará falseado também o conceito. A rigor, o pecado não tem seu lugar em nenhuma ciência. Ele é objeto daquela pregação em que fala o indivíduo, como o indivíduo que se dirige ao indivíduo.

A Ética mostra a idealidade como tarefa, e pressupõe que o homem esteja de posse das condições. Com isso, a Ética desenvolve uma contradição, justamente ao tornar nítidas a dificuldade e a impossibilidade.

A virtude por si só não torna o homem feliz e contente, mas ele precisa ter ainda saúde, amigos, bens nesta vida, ser feliz em sua família

Esta propriedade da Ética de ser assim ideal é o que conduz à tentação de, em seu estudo, usar categorias ora metafísicas, ora estéticas, ora psicológicas.

O pecado então só pertence à Ética na medida em que é nesse conceito que ela encalha, mediante o arrependimento. Se a Ética acolher o pecado, acabou-se a idealidade dela. (...) Na luta para realizar a tarefa da Ética, o pecado se mostra não como algo que pertence só por acaso a um indivíduo casual, mas o pecado se retrai sempre mais profundamente como um pressuposto sempre mais profundo, como um pressuposto que recai sobre cada indivíduo. Agora está tudo perdido para a Ética, e a Ética contribuiu para a perda total.

Esta Ética não ignora o pecado, e a idealidade dela não consiste no exigir idealmente, mas sua idealidade consiste na consciência penetrante da realidade, da realidade do pecado, porém, bem entendido, não com leviandade metafísica ou concupiscência psicológica.

A tarefa de explicar o pecado hereditário foi identificada com a de explicar o pecado de Adão.

O homem é individuum e, como tal, ao mesmo tempo ele mesmo e todo o gênero humano, de maneira que a humanidade participa toda inteira do indivíduo, e o indivíduo participa de todo o gênero humano.

Portanto, o indivíduo tem história; mas se o indivíduo tem história, o gênero humano também a tem.

Nenhum indivíduo é indiferente à história do gênero humano, e nem esta é indiferente à história do indivíduo.

Adão é o primeiro homem, ele é ao mesmo tempo ele mesmo e o gênero humano.

Ele não é essencialmente diferente do gênero humano; pois nesse caso o gênero humano nem existiria; ele não é o gênero humano, pois aí nem haveria o gênero humano: ele é ele mesmo e o gênero humano.

Com o primeiro pecado, entrou o pecado no mundo.

Tudo isso não passa de determinações quantitativas que nada explicam, a não ser que se suponha que um único indivíduo é todo o gênero humano, em vez de se aceitar que cada indivíduo é ele mesmo e o gênero humano.

Se o mito do intelecto pudesse significar realmente alguma coisa, deveria ser que a pecaminosidade antecede ao pecado. Porém, se isso é verdadeiro no sentido de que a pecaminosidade veio ao mundo por algo diferente de um pecado, então o conceito está abolido. Mas se a pecaminosidade adentrou o mundo com o pecado, então é que este a antecedeu. Esta contradição é a única dialeticamente consequente, que dá conta tanto do salto quanto da imanência (isto é, a imanência posterior).

Expresso de maneira bem estrita e correta, há que dizer que, com o primeiro pecado, a pecaminosidade penetrou em Adão.

Expresso de modo estrito e correto, a pecaminosidade só está no mundo na medida em que é introduzida pelo pecado.

O gênero humano não começa, portanto, do início com cada indivíduo – pois assim não haveria de maneira alguma o gênero humano –, porém cada indivíduo recomeça com o gênero humano.


Fonte:
Kierkegaard, Sören A. O conceito de angústia: Uma simples reflexão psicológico-demonstrativa direcionada ao problema dogmático do pecado hereditário. Petrópolis: Vozes, 2017.
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