Existencialismo e humanismo: semelhanças e diferenças


Existencialismo é uma filosofia contemporânea que busca compreender a existência humana em seus aspectos singular, concreto, afetivo e histórico. Se desenvolveu na Europa, por volta dos séculos XIX e XX, e entende que a existência precede a essência, ou seja, que nos fazemos por meio de nossas escolhas, pois não há uma essência prévia que nos defina.

A filosofia existencialista tem como foco a existência do ser humano, que é resultado das escolhas que fizer em sua vida, segundo os limites de suas condições físicas, psicológicas e sociais. Entende como principal valor a liberdade, onde cada indivíduo é livre para fazer escolhas e responsável pelas escolhas que fizer.

Humanismo foi um movimento intelectual e cultural surgido no período do Renascimento, entre meados do século XIV e o fim do século XVI, se posicionando contrário à Filosofia Medieval (que tinha Deus como uma autoridade superior), passando a priorizar o homem como centro de suas reflexões.

Neste período, o ser humano passou a ser destacado nas obras de arte, na literatura e na ciência. O homem passa a ser o valor supremo, valorizando a razão e a dignidade de cada pessoa e buscando meios para sua realização. Valoriza a razão e a dignidade do ser humano. Entende o ser humano como criador de si mesmo e de sua natureza e acredita que as pessoas são naturalmente boas.

A psicoterapia humanista surge por volta das décadas de 1930 e 40, na América do Norte, como uma reação contra o determinismo das abordagens comportamentais e da rigidez da psicanálise ortodoxa. É representada por uma série de vertentes de diferentes autores como Abraham Maslow, Gordon Allport, Carl Rogers, Erich Fromm, entre outros.

Os psicoterapeutas humanistas consideram o respeito pela pessoa tal como ela é, acreditando no potencial de cada um para lidar e superar suas dificuldades. O principal valor desta abordagem é o enfoque na relação, entendendo que a existência humana se desenvolve num contexto interpessoal, na relação com o(s) outro(s).

A abordagem existencial e a humanista costumam ser confundidas por possuírem muitas semelhanças, porém há diferenças bem contraditórias que merecem ser destacadas. Neste breve texto comento um pouco sobre as semelhanças e diferenças entre elas.


Semelhanças

Tanto as abordagens existencialistas quanto as humanistas entendem que o ser humano está em permanente transformação, sendo ele o centro de valoração para suas escolhas, livre para escolher e responsável pelas escolhas que fizer em sua vida. De um modo geral, ambas questionam e contrariam as abordagens comportamentais e psicanalíticas, entendendo o ser humano como mais complexo que comportamentos e inconsciente.

Além disso, ambas as abordagens rompem com o conceito de sujeito cartesiano, o "penso, logo existo" (de René Descartes), que prioriza a razão sobre as emoções e divide o ser humano em "mente e corpo". Ambas abordagens entendem o ser humano como racional e emocional, reconhecendo e valorizando seus aspectos emotivos.


Diferenças

Enquanto que o humanismo toma o ser humano como fim nele mesmo e valor supremo, entendendo que deve buscar em si mesmo seus valores e identificações, no existencialismo cada indivíduo está sempre se projetando para fora de si mesmo para encontrar seu significado, e nunca toma o ser humano como fim, pois ele está sempre por fazer a si mesmo.

"Não é em algum retiro que nós nos descobrimos: é na estrada, na cidade, em meio da multidão, como coisa entre coisas, como homem entre homens."
(Jean-Paul Sartre, em 'Situações I', 1947)

Diferente da Europa no período entre-guerras, contexto onde se desenvolve o existencialismo, o humanismo se intensifica na América do "New Deal", um período mais esperançoso. Por conta disso, o existencialismo é muitas vezes associado à angústia e ao absurdo, diferente do otimismo presente no pensamento humanista.

Com relação ao tema da liberdade, tanto o existencialismo como o humanismo entendem que toda pessoa é livre para fazer escolhas, para o humanismo isso representa algo positivo  e até um privilégio da experiência humana, porém para o existencialismo a liberdade nem sempre é boa, mas muitas vezes um drama e até um fardo, segundo as palavras de Sartre, o homem está "condenado" a ser livre.

Na questão dos valores, o humanismo possui uma tendência de crer que toda pessoa seja "boa" por natureza, que uma pessoa "ruim" foi impedida de ser boa. Já para o existencialismo o ser humano não é bom nem mau por natureza, pois não parte da concepção de natureza humana, portanto a pessoa "má" escolheu ser "má", enquanto que a pessoa "boa" escolheu ser "boa".

Além disso, no existencialismo os valores do que seja "bom" ou "ruim" não são fixos, mas dependem de cada indivíduo que atribuiu o valor segundo suas experiências, crenças e sentimentos. Deste modo, não há um "bom" em si, nem um "mau" em si, mas escolhas que cada um faz e julga como "boas" ou "ruins", e isso varia de indivíduo para indivíduo.

Sobre o desenvolvimento pessoal, os humanistas defendem que o ser humano tende descobrir as potencialidades que lhe são inerentes, já os existencialistas, partem da concepção que a "existência precede a essência", portanto acreditam que cabe a cada pessoa criar e escolher suas potencialidades, neste sentido a pessoa não está indo de encontro consigo mesma, mas a escolher e fazer a si mesma.

"Assim, os teóricos de auto-realização (humanistas) falam de descoberta do eu; os existencialistas, de criação do eu."
(Tereza S. Erthal, em 'Terapia Vivencial', 1999)

Por fim, a abordagem existencial-humanista utiliza pressupostos de ambas concepções para compor o corpo teórico de uma prática psicoterapêutica, somando aspectos do existencialismo e do humanismo, considerando o ser humano livre para fazer escolhas e possuidor de uma tendência para ir de encontro com sua realização.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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