A fenomenologia na prática da psicoterapia


Fenomenologia é um método de aquisição de conhecimento, iniciado por Edmund Husserl (1859-1938), filósofo e matemático, que propôs o estudo do fenômeno tal como ele se apresenta à consciência. Outros autores contribuíram na fenomenologia, antes e depois de Husserl, tais como Franz Brentano, Max Scheler, Maurice Merleau-Ponty, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre.

A fenomenologia se dedica ao estudo do fenômeno, não como um fato, mas como algo aproximado do real. O intuito da fenomenologia não é chegar a um ideal de coisa, avaliado racionalmente, mas se aproximar da coisa observada na tentativa de compreendê-la do modo como ela se mostra. E, para se observar a coisa tal como ela se mostra, é preciso deixar de lado nossos juízos prévios sobre a coisa observada, deixar eles entre parênteses.

O olhar fenomenológico trata-se de se ater ao observado sem se tendenciar por suas crenças pessoais sobre o observado, crenças que muitas vezes foram desenvolvidas antes mesmo de sua experiência com o observado. Assim, deixamos de lado nossas concepções prévias e nos colocamos a observar como uma coisa nova e desconhecida, num estágio pré-reflexivo, antes de nossas elaborações ou interpretações sobre o que observamos.

Para entender melhor essa concepção, é preciso entender, primeiramente, que não somos uma máquina ou um ser neutro. Todos temos uma história de vida, valores e concepções do que é uma coisa e do que não é, pois nos guiamos pelo que aprendemos. Quando olhamos para algo, inevitavelmente associamos com outra coisa que já vimos ou conhecemos, e quando fazemos isto não estamos a olhar para este algo, mas buscando o que desse algo já conhecemos, buscamos entender algo novo por meio do entendimento velho que já temos.

Quando olhamos para uma coisa com base no entendimento que já temos, não estamos a olhar para esta coisa, mas a estabelecer uma associação com o que entendemos de outra coisa, que no momento associamos com a que estamos observando. Pode ser que o que estamos a observar seja realmente parecido com o que já vimos e conhecemos, mas pode ser que não seja. Agindo assim, nem sempre estaremos "vendo" o que estamos a "observar", pois nos remete a algo que já havíamos observado anteriormente.

A esse modo de perceber por meio de associação chamamos de "intencionalidade", que é o direcionamento de nossa consciência em relação à coisa observada para o que já experimentamos ou desejamos perceber. Por conta da intencionalidade, fica impossível pensar de maneira generalista e universal numa descrição que se refira a mesma cena.

A realidade não é entendida como algo objetivo, mas um conjunto de significações e sentidos que estabelecemos com as coisas, podendo ter diferentes significados pessoais ou sociais. Fenômeno é tudo aquilo que aparece para uma consciência, do modo como aparece. O modo como uma coisa aparece para uma pessoa envolve suas próprias significações, por exemplo, mesmo que tenhamos conhecimento do que seja depressão, ansiedade, estresse, trauma, pânico, entre outras coisas, a questão é como essas situações acontecem em cada pessoa.

O método fenomenológico consiste em colocar entre parênteses todas as concepções prévias e teorias que concebemos sobre o fenômeno que vamos observar. Esse procedimento nos possibilita descrever as vivências antes de qualquer reflexão ou análise. Trata-se de aproximar das coisas tal como elas se apresentam e não como nós acreditamos ou desejamos que elas sejam.

Este método é utilizado diversas abordagens de psicoterapia, entre elas a Existencial, a Centrada na Pessoa e a Gestalt-Terapia. Sua prática consiste justamente em observar a pessoa atendida não como algo que já conhecemos, mas como um ser novo, que se revela a cada momento, em cada encontro e em cada diálogo. Não há como utilizar concepções prévias sobre o modo de ser de uma pessoa, que possui uma história de vida singular e que não conhecemos, por isso o método fenomenológico demanda muita abertura.

A prática da psicoterapia fenomenológica consiste em observar a pessoa tal como ela se mostra enquanto fenômeno, deixando de lado nossas concepções prontas e interpretações prévias. O importante não é o fato objetivo, mas o modo como esse fato se relaciona com a experiência de cada um.

A pessoa se revela conforme se mostra, o intuito da prática fenomenológica existencial é compreender a pessoa tal como ela se apresenta, como ela se relaciona consigo mesma e com os outros, como ela se sente e como ela lida com seus sentimentos. A pessoa vai se revelando a cada encontro, a cada momento se abre para descrever sua realidade tal como experimenta e sente. Com isso vamos estabelecendo uma compreensão da pessoa que parte da própria pessoa, e não de um conceito externo à pessoa.

Tanto o psicoterapeuta quanto a pessoa atendida devem compreender que a psicoterapia é um processo, que acontece num período de tempo. Cada pessoa tem seu tempo e se revela de seu modo, por isso é importante respeitar o tempo e o momento de cada um, estando aberto a receber o que a pessoa tem a nos apresentar.

Deste modo, compreende-se que, por meio da fenomenologia, não há como se interpretar a pessoa previamente antes que ela se mostre como realmente sente e experimenta sua vida, do mesmo modo que não há como se ater à descrições prontas sobre o modo de ser de cada um. Essa postura fenomenológica valoriza a singularidade, a liberdade e os distintos modos de ser  de cada indivíduo. Trata-se de uma abordagem que busca reconhecer a pessoa tal como ela se apresenta, e não como esperamos ou desejamos que ela seja.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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