Sartre: vida e obra - Luiz Carlos Maciel

No livro "Sartre - Vida e Obra", o filósofo, escritor e "guru da contracultura", Luiz Carlos Maciel oferece uma boa introdução sobre o filósofo francês sob seus diversos ângulos.

Este livro facilita o leitor ao acesso à obra de Jean-Paul Sartre, um dos pensadores mais importantes do século XX, fundador do existencialismo, romancista, dramaturgo, contista, ensaísta, filósofo e homem político.

Segue abaixo alguns trechos do livro:


As coisas não são essências dissimuladas pela máscara da aparência que é preciso arrancar pela dedução ou pela indução. São os "fenômenos" tais como aparecem na consciência. São eles que devem ser interrogados pelos filósofos.

A consciência é um partir em direção às coisas que a ela se entregam como fenômenos.

A imagem não é uma coisa: é um ato de consciência. Como na percepção, é consciência de alguma coisa, uma forma de consciência organizada que se relaciona intencionalmente, de um modo específico à coisa. É, em suma, uma das maneiras possíveis à consciência de visar uma coisa real.

Distinguindo o "ser-em-si" do "ser-para-si": o primeiro, região das coisas materiais, é pura inércia; o segundo, região da consciência, é pura abertura espontânea, pura vacuidade e, portanto, uma "nadificação" na totalidade do ser.

O mundo é contingente, isto é, não é absolutamente necessário, e que estamos demais nele, sobrando, por nada, e para nada, radicalmente gratuitos. Os objetos materiais permanecem estranhos a nós: opacos, impenetráveis, ininteligíveis. A nossa vida só encontra solidez quando está atrás de nós, morta, irrecuperável, transformada em passado. No presente, não temos nunca uma essência necessária, como uma pedra ou uma árvore.

A contingência não é uma máscara, uma aparência que se possa dissipar: é o absoluto, em consequência a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade, eu mesmo.

O homem existencialista de Sartre é pura liberdade, mas liberdade “situada”, isto é, suas opções são limitadas pelas circunstâncias objetivas.

Somos todos perfeitamente livres, ou melhor, existimos todos perfeitamente livres; ninguém é alguma coisa (radical, definitivamente) - covarde, bondoso, comunista, homossexual, etc. - mas as situações tendem a tornar-nos tal.

Nele, aprofunda a sua teoria da "nadificação" da consciência: puro deslizamento para as coisas, a consciência é a rigor um nada, pura indeterminação e portanto pura liberdade. Embora já colocasse essa liberdade em situação, Sartre ainda não concebia a situação histórica e concretamente.

Sartre parte do suposto fenomenológico que a emoção, enquanto comportamento da consciência, também intenciona o mundo.

Segundo a teoria fenomenológica de Sartre, a emoção - como a percepção ou a imaginação - é uma determinada maneira de apreender o mundo.

Sartre distingue no mundo dois modos fundamentais de ser. O primeiro deles é o da consciência humana, que consiste em puro deslizamento para as coisas. Não é nada, a rigor. A consciência não tem conteúdo e, portanto não é coisa alguma. O ser cujo modo de ser, é o da consciência, é, por isso, segundo os termos de Sartre, um ser-para-si. O ser das coisas materiais, ao contrário, é em-si: não existe nelas intenção alguma que vise o mundo. São pura imanência, do mesmo modo que a consciência é pura transcendência.

Pode-se dizer, por isso, segundo Sartre, que o ser-para-si não é, mas existe, ao passo que o em-si é.

O ser-para-si sartreano é um vazio, uma falta que deve ser completada. Por isso, visa, desliza para o em-si. Esse vazio é a liberdade fundamental do para-si. Tal é o sentido do título do livro de Sartre: o Ser (em-si) e o Nada (isto é, o para-si, consciência, liberdade).

O para-si vazio, oco, é pura indeterminação: é portanto radicalmente livre. Essa liberdade, movendo-o através de suas possibilidades, é que procurará criar-lhe um conteúdo. Ao experimentar essa liberdade, ao sentir-se como um vazio, o para-si experimenta uma angústia característica: é a angústia da escolha, de ser obrigado a optar por uma entre todas as possibilidades que se abrem diante de si.

O para-si não é, não possui uma essência: é pura existência. Está condenado portanto à fazer escolhas que lhe criem uma essência. Mas a angústia é a apreensão reflexiva dessa liberdade.

Livramo-nos da exigência de decisão: deixamos que o outro escolha por nós enquanto guardamos, intacto, o segredo de nossa liberdade. Trata-se, sem dúvida, de uma escamoteação e Sartre a trata com a primeira estrutura da má-fé. A segunda pode ser descrita como o mecanismo com que representando o papel que os outros designaram para ele de maneira mais perfeita possível. Ele trata de ver-se, portanto, pelos olhos dos outros e sentir-se, através deles.

Quando me envergonho, vejo-me como objeto pelo olhar do outro. É preciso sempre que haja outro para que esse fenômeno se processe. Se faço, por exemplo, um gesto vulgar quando estou sozinho, não me envergonho por causa dele: não o julgo nem me culpo, simplesmente o vivo no modo de ser para-si.

O Outro - diz Sartre - é o mediador indispensável entre eu e eu mesmo.

O ser-para-o-outro é uma estrutura essencial do ser-para-si porque o liga ao em-si. Ao me sentir em face do outro, realizo uma síntese entre o para-si que sou, solitário, e o em-si que sou para ele. É justamente essa síntese que Sartre chama para-o-outro, um terceiro modo de ser que caracteriza mais profundamente a realidade humana.

Não se trata apenas de saber que os outros existem e de saber como são, mas de como ajo sobre eles, de como agem sobre mim e de como agimos sobre o mundo.

Há uma modificação estrutural em mim exatamente como apareço para o Outro. Se seu olhar me censura, torno-me objeto de reprovação; se me admira, torno-me objeto de admiração. De qualquer forma, seu olhar me petrifica numa coisa-em-si.

Em face do Outro, portanto, estou constantemente em perigo. Não tenho poderes para extrair dele, sempre, um olhar admirativo que me justificasse. Ele eternaliza minhas falhas. Tornando-me pedra, rouba minha liberdade. Minha única defesa, então, é procurar inverter a situação: usar meu olhar para petrificá-lo, preservar minha liberdade de para-si em face dele, torná-lo uma coisa em-si. Sartre conclui que a minha liberdade necessariamente inibe a do outro da mesma forma que a do Outro inibe a minha. A essência das relações humanas, consequentemente, não é o Mitsein (ser-com) heideggeriano, mas o conflito.

Somos totalmente livres para escolher. Escolhemo-nos portanto à nós próprios. Estamos certamente submetidos a uma série de circunstâncias materiais que marcam nossos limites como seres contingentes num mundo contingente. Mas essa facticidade, como chama Sartre, é apenas a base de nossa liberdade: é o material sobre o qual se exercerão nossas escolhas livres.

Para agir, porém, o homem deve estabelecer projetos: deve decidir entre as coisas a ser feitas, quais ele irá fazer. Como, entretanto, me decido entre isso ou aquilo; como opto por esse ou aquele projeto? Sartre responde que essa questão é decidida pelo poder de valoração da consciência. Ele confere valor às coisas, tornando-as preferíveis umas às outras.

Ao criar e conferir valores, escolho livremente não só meus atos mas também o que a psicanálise clássica chamaria de “caráter”. Essa escolha fundamental de mim próprio é chamada por Sartre de “projeto original”: não é um “caráter” pois pode ser mudado a qualquer momento mas orienta minha maneira de apreender o mundo, subordina meus outros projetos e determina minhas ações, emoções, sentimentos, etc.

Meu corpo é meu contato com o mundo: não poderia apreender este último sem tê-lo. A consciência não cessa nunca, portanto, de ter um corpo. Através do meu corpo, capto minha própria contingência.

O desejo me compromete: sou cúmplice dele.

Sartre fazia evoluir seu conceito de liberdade: descobria que ela só teria sentido se se comprometesse numa causa.

Sua ética, então, já começava a abandonar a esfera do moralismo abstrato, e idealista para se realizar no moralismo concreto e materialista da política.

Sartre procura mostrar que as liberdades individuais estão obrigadas ao compromisso porque todos os acontecimentos humanos objetivos as afetam e, em última análise, dependem delas.

A liberdade só possui significado na ação, na capacidade do homem de impor modificações no real.

Se sou totalmente livre, sou totalmente responsável. Não tenho desculpas para nenhum dos meus atos. Essa responsabilidade é tanto mais grave, porque ao me escolher, escolho implicitamente todos os homens. Isto é: ao me definir como homem, defino também o que é para mim o humano em geral.

Sartre mostra que nenhuma moral institucionalizada pode oferecer uma resposta.

Sartre diz que o ato revolucionário é “o ato livre por excelência” porque o revolucionário reivindica a libertação de toda a sua classe e de todos os homens.

A transformação da realidade é operada ao usarem os homens a si próprios como instrumentos.

O homem portanto que começa a fazer objetos, passa a ser feito por eles.

A fórmula que resume sua filosofia existencialista - os homens são liberdade em situação.

O pensamento de Sartre parte da preocupação do indivíduo concreto, esse que somos, o que sofre na carne e nos nervos a crueldade e a injustiça de um mundo, que não se referem apenas ao estômago, à pele e à sobrevivência material, mas ao próprio espírito.


Fonte:
MACIEL, Luiz Carlos. Sartre: Vida e Obra. São Paulo: Paz e Terra, 1980.
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