Conservadorismo e existencialismo

 

Conservadorismo é uma vertente de pensamento e uma prática política que defende a preservação dos valores e das instituições tradicionais, tais como a religião, a propriedade privada e a hierarquia social, buscando manter a sociedade e as relações entre as pessoas alinhados a um padrão específico, contrariando mudanças abruptas, rompimentos na tradição.
"Conservadorismo designa idéias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças  inovadoras."
(Norberto Bobbio, em 'Dicionário de Política', 1998)
O pensamento conservador costuma ser associado ao liberalismo e ao pensamento de direita na política, tendo como foco a estabilidade e a manutenção de valores tradicionais. O conservadorismo não é uma doutrina única e igual para todos, mas se difere de acordo com o local e o momento específico, visto que há diferentes concepções de tradição dependendo do tempo e do espaço.

No Brasil, os conservadores costumam ser contrários aos valores progressistas e pós-modernos, entre eles o aborto, a diversidade sexual, a união estável entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais homossexuais, a separação entre instituições religiosas e políticas; e movimentos sociais como os direitos das minorias, o feminismo, o ambientalismo, o movimento negro, o movimento LGBT, entre outros.

Os conservadores tomam a tradição como base para a vida pessoal, social e política. Não acreditam que o ser humano é "naturalmente bom", mas que precisam do hábito das tradições para que ocorra um bom funcionamento da sociedade. Acreditam que os ideais de liberdade e de coletivismo acabam gerando um estado autoritário e totalitário.
“Os conservadores são pessimistas quanto ao futuro e otimistas quanto ao passado.”
(Lewis Mumford)
Seus principais valores são a liberdade política e econômica, e a ordem social e moral, acreditando na existência de uma moral transcendente baseada na doutrina cristã e nos pilares da sociedade ocidental. Também buscam a manutenção dos costumes, das tradições e das convenções, enfatizando a continuidade e a estabilidade dos valores morais e das instituições.

A política conservadora é caracterizada pelo retorno aos valores tradicionais e pela prudência, geralmente optando por manter e melhorar as instituições estáveis do que testar rupturas ou novos modelos de sociedade, mantendo a hierarquia e a estrutura social tradicional. Entendem que toda sociedade deve adotar padrões de comportamento e valores para garantir uma coesão social.

Deste modo, se opõem à qualquer tipo de movimento revolucionário, políticas progressistas e ao multiculturalismo. No Brasil costumam se opor aos governos e filosofias de esquerda, ao Partido dos Trabalhadores, à proposta de educação humanista de Paulo Freire, ao Movimento Sem Terra, ao socialismo e comunismo, ao marxismo e vertentes derivadas. Além disso, alguns conservadores costumam declarar que há uma "conspiração comunista" nas escolas e universidades brasileiras.

O filósofo político irlandês Edmund Burke (1729-1797) é considerado um dos principais nomes do conservadorismo moderno, tendo inflenciado o pensamento conservador na Inglaterra e o filósofo estadunidense Russell Kirk (1918-1994), que elaborou os dez princípios conservadores em seu livro "The Conservative Mind" (A Mente Conservadora):
  • : acredita que existe uma ordem moral duradoura;
  • : adere ao costume, à convenção e à continuidade;
  • : acreditam no princípio do preestabelecimento;
  • : são guiados pelo princípio da prudência;
  • : prestam atenção no princípio da variedade;
  • : são refreados pelo princípio da imperfectibilidade;
  • : estão convencidos que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas;
  • : promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário;
  • : percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas;
  • 10°: compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta.

O pensamento conservador se iniciou no Brasil nos tempos do Império, por volta de 1836 surgiu o Partido Conservador, defendendo a bandeira da "ordem" e da manutenção da tradição. Recentemente, após o longo período do governo petista e reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, seguida da crise econômica e dos escândalos de corrupção envolvendo empresas estatais e políticos do governo, o conservadorismo volta a tona, no intuito de resgatar valores tradicionais e as políticas liberais.

Alguns dos conservadores brasileiros famosos são Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro (atual presidente do Brasil), Luiz Felipe Pondé (filósofo), Felipe Moura Brasil, Ricardo Vélez Rodríguez (atual Ministro da Educação), Ernesto Araújo (atual Ministro das Relações Exteriores).

Partindo dessas descrições, é possível perceber que o conservadorismo é muito diferente do existencialismo. O existencialismo valoriza a liberdade de escolhas, os diferentes modos de ser e a mudança, enquanto que o conservadorismo valoriza a tradição e a manutenção de valores tradicionais, sendo contrário a diversidade de modos de ser.

A vertente existencialista não entende que há uma ordem moral, ou mesmo que houvesse, não temos que nos submeter a uma regra moral, pois entende a moral como algo criado e transformado continuamente pelas pessoas. Não visa a seguir um costume específico, pois compreende que cada pessoa é livre para aderir ou não a um modo de ser. Não se detém ao preestabelecido, pois entende o ser humano como um vir-a-ser, sempre em transformação, onde nada está fixo.

Na questão da liberdade, para o existencialista ela não está atrelada a concepção de propriedade. Os conservadores geralmente entendem a liberdade como 'liberdade de propriedade', ou seja, se você possui capital ou propriedade, você é livre. Já os existencialistas compreendem a liberdade como algo que independe da propriedade, a liberdade para o existencialismo é uma condição e não algo que se possa consumir, ter ou não. Na concepção existencialista o homem "é liberdade", pois está a todo tempo fazendo escolhas.

Por fim, o existencialismo não defende a contenção das paixões humanas, como propõe o conservadorismo, pelo contrário, entende que são as paixões que movem os indivíduos e que dão sentido para a possa existência.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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