Rock grunge e o existencialismo


O grunge é um gênero musical que surgiu do rock alternativo no final da década de 1980 em Seattle (Washington, EUA), com influências do punk e do heavy metal, porém com uma levada mais despojada e libertária, exercendo um grande impacto na música dos anos 1990.

As bandas grunge não se encaixavam no estilo "pop enlatado" dos anos 1980, de bandas como Aerosmith, Bon Jovi e Guns'n'Roses, que adotavam um estilo de "bem comportados". O grunge contrariava esta postura, não se importando com gravações perfeitas ou muito produzidas, usando guitarras distorcidas com microfonia, cabelo despenteado e se apresentando sem cenário, com mais simplicidade.

Este gênero de rock era mais autêntico, mostrando as coisas como elas são, sem frescuras ou modismos. O termo "grunge" vem da expressão "gungry", um jargão inglês que pode ser traduzido por "sujo". Entre as diversas influências musicais deste gênero se destacam as bandas Sonic Youth, Pixies, The Stooges, Black Flag, MC5, Ramones e Black Sabbath.

O rock grunge canalizava toda angústia e revolta que os adolescentes sentiam perante as incertezas da vida. Nas músicas percebe-se variações entre melodias lentas e berros de agonia, gritos sinceros e desafinados de angústia e revolta. Os shows eram marcados por saltos e arremessos de instrumentos musicais, eles não buscavam a perfeição, pelo contrário, valorizavam a expressão e a liberdade.

"Venha como você é."
(Kurt Cobain, em 'Come as you are', 1991)

Algumas das bandas mais famosas neste gênero foram Nirvana, Pearl Jam, Mudhoney, Melvins, Alice in Chains, Soundgarden, Hole, L7, Dinossaur Jr., Babes in Toyland, Meat Puppets, Stone Temple Pilots e Screaming Trees. Suas músicas soavam como uma mistura entre o rock dos anos 1960 com o punk, o heavy metal e o rock alternativo e independente.

Sem dúvida a banda que mais se destacou foi o Nirvana, formada em Aberdeen (Washington, EUA) pelo vocalista e guitarrista Kurt Cobain (1967-1994) e o baixista Krist Novoselic (1965-), com a entrada posterior do baterista Dave Grohl (1969-). Eles estouraram nas paradas de sucesso com a música "Smells Like Teen Spirit", lançada em 1991, no álbum "Nevermind", mudando os rumos do rock dos anos 1990.

As letras das músicas tratavam de temas como alienação, questionamentos existenciais, isolamento, traumas, sofrimento psicológico, negligências, desejo por liberdade, exclusão social, drogas, entre outros. De um modo geral eles demonstravam um certo desinteresse para com a sociedade e os valores da época, e um desconforto diante das coerções sociais.

Os músicos de rock grunge fizeram parte de uma geração nascida após a Segunda Guerra Mundial, entre os anos 1960 e 70, caracterizada pela falta de identidade e necessidade de enfrentar um futuro incerto. Nesta época, os jovens não acreditavam muito em Deus e não se identificavam com a educação recebida pela escola e pelos pais, muitas vezes se rebelando e buscando adotar um estilo próprio.

"A angústia adolescente me pagou muito bem, agora estou velho e entediado."
(Kurt Cobain, em 'Serve the servants', 1993)

A estética grunge é despretenciosa, muitas vezes aparentando desleixada ou cômica - barbas por fazer, calças rasgadas e mistura estilos variados de roupas, pois rejeitavam os valores da moda predominante. O som grunge tinha como característica riffs e acordes de guitarra com distorção, efeitos de fuzz e feedback, momentos de calmaria com andamentos lentos e outros agitados e mais agressivos, envolvendo harmonias, dissonâncias e ruídos.

Os shows de rock grunge costumavam ser diretos e espontâneos, sem performances preparadas e sem arranjos de luz ou qualquer efeito fora a música. Os músicos se apresentavam com roupas simples e baratas, muitas vezes gastas ou adquiridas em brechós, indo na contramão da estética "arrumada e bonita", convencional dos anos 1980.

Com todas essas características percebe-se que o grunge possui muitas semelhanças com o existencialismo, tais como a liberdade de ser e não se ater a modismos, a valorização das singularidades e dos diferentes modos de ser, usando nas letras das músicas temas como a crise de identidade, as angústias perante as incertezas da vida e a busca por caminhos alternativos.

Além disso, também criticavam a hipocrisia e as normas sociais vigentes, valorizando a escolha de cada um sobre seus modos de ser e de se expressar. As músicas tratavam sobre temas concretos, colocando sempre a pessoa em relação com o mundo e com as coisas do mundo, ao invés de tratar sobre idealizações, entendendo a pessoa como um ser-no-mundo, tal como o existencialismo se coloca.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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